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IA e o paradoxo de Midas

Vivemos um paradoxo curioso: 88% das empresas já usam Inteligência Artificial em pelo menos uma função, e a velocidade dessa adoção é impressionante (além de irreversível). Por outro lado, dois terços dessas organizações ainda estão presas em pilotos. Testam, validam, experimentam. Mas não escalam.

Refletir sobre isso me fez lembrar do Rei Midas, o “presente” auspicioso do Deus Dionísio. De repente, o desejo de todos nós e das nossas empresas é a IA e o toque de ouro. Onde a IA tocar, que se torne ouro.

Isso ocorre porque a Inteligência Artificial saiu do laboratório, tornou-se onipresente, mas a maioria das empresas ainda encontra barreiras em transformá-la em valor sistêmico para o negócio – não por falta de tecnologia, mas, muitas vezes, por falta de coragem para se redesenhar de forma estrutural.

O loop dos pilotos eternos
Nosso mercado conhece esse ciclo de perto. Empresa contrata consultoria, monta squads, desenvolve POCs brilhantes, celebra os resultados, apresenta para o board. E então? O board pressiona, a diretoria corre em busca do ouro. No paralelo, o mesmo modus operandi.

O piloto vira case interno, ganha troféu, mas não transforma o negócio
Os Dados do relatório “The State of AI in 2025”, da McKinsey, confirmam: apenas um terço das empresas conseguiram escalar IA de forma estruturada. E aqui mora a diferença entre discurso e execução. Entre apresentação de slides e mudança real.

Assumir o risco de mudar processos, estruturas de tomada de decisão ou modelos de Governança leva tempo, exige coragem e, para além disso, exige que toda essa transformação nasça para além da tecnologia – com ênfase em impacto de negócio.

O novo nasce na Segurança do experimento controlado, mas o impacto na realidade da transformação estrutural e sistêmica.

A era dos agentes e de autonomia responsável
O ano de 2025 trouxe algo diferente, os agentes de IA. Não mais assistentes que respondem perguntas, mas sistemas capazes de planejar, decidir e executar tarefas de múltiplas etapas sem supervisão constante. 62% das empresas já experimentam essa tecnologia. 23% já implementaram em escala.

Esses números mostram velocidade, mas também expõem um desconforto organizacional legítimo, que é entregar autonomia para algoritmos exige redesenhar confiança, responsabilidade e controle.

Aqui entra o dilema que venho repetindo: quanto mais sofisticada a tecnologia, mais humana precisa ser a liderança. Empresas que entendem isso não perguntam “o que a IA pode fazer?”. Perguntam “como redesenhamos o trabalho para que IA e pessoas atuem de forma complementar?”. É uma mudança de postura. De ferramenta para modelo operacional.

Redesenhar ou ficar para trás
O que observo é claro, empresas de alto desempenho não adicionam IA ao que já fazem. Elas decompõem fluxos de trabalho, decidem o que humanos fazem melhor, o que máquinas fazem melhor, e rearquitetam a operação.

Dados fragmentados, sistemas legados e resistência cultural são as barreiras reais. Não é problema técnico, é problema de modelo mental e isso exige uma maturidade organizacional absurda. Empresas tratam IA como projeto de TI quando deveriam tratá-la como transformação estratégica liderada pelo CEO.

A diferença entre piloto e escala não está no código, mas na disposição de mudar o que sempre foi feito de determinada forma. Aprendi isso na prática.

O salto das indústrias esquecidas
Enquanto empresas digitalizadas trabalham para escalar IA a partir de infraestruturas existentes, algo curioso acontece nas indústrias que o SaaS não alcançou.

Construção, agricultura, advocacia, manufatura, setores que ainda operam com processos de 20 anos atrás, estão pulando etapas. Vão direto do analógico para agentes de IA, sem passar pelo SaaS tradicional. É o mesmo fenômeno dos pagamentos móveis na África ou smartphones em mercados emergentes: quando não há sistema legado a substituir, o custo de mudança é baixo e o valor imediato é alto.

Muitas vezes, quem parte do zero tem mais facilidade de avançar. Não porque a tecnologia é diferente, mas porque redesenhar do zero é mais simples que adaptar estruturas complexas já estabelecidas esse é o paradoxo.

O insight? Enquanto algumas empresas buscam integrar IA em workflows existentes, outras redesenham operações completas desde a base. A diferença entre adaptar e redesenhar pode determinar se a IA gera eficiência incremental ou transformação sistêmica.

O impacto ainda é restrito e isso deveria preocupar
Aqui vai um dado incômodo: apenas 6% das empresas reportam impacto superior a 5% no EBIT com IA. A tecnologia mais comentada dos últimos anos ainda gera resultado financeiro significativo para um grupo minúsculo.

Empresas celebram redução de 20% no tempo de atendimento ao cliente, mas não perguntam: “E se redesenharmos toda a jornada do cliente com IA do início ao fim?”. Comemoram automação de tarefas repetitivas, mas não questionam: “E se reconfigurarmos times inteiros para trabalharem com agentes autônomos?”.

A diferença entre 2% e 20% de impacto não está na tecnologia, está no detalhe, na ambição estratégica.

Riscos que não podem ser ignorados
O cenário atual mostra empresas lidando com mais riscos do que em anos anteriores. Imprecisões (alucinações), conformidade regulatória e propriedade intelectual são as maiores preocupações que vejo nas conversas com lideranças.

Vi casos de empresas que aceleraram adoção de IA sem cuidado com Dados sensíveis, sem clareza sobre viés algorítmico, sem protocolos de auditoria e Governança clara desde o início. O resultado? Processos judiciais, multas regulatórias e, pior, perda de confiança de clientes.

Autonomia sem responsabilidade não é inovação. É negligência.

O que 2026 exige de nós
O paralelo com IA é desconfortável: empresas têm acesso à tecnologia mais poderosa já criada, mas continuam presas em modelos operacionais que não foram feitos para ela. Celebram pilotos (ouro estético), mas não conseguem transformá-los em valor sistêmico (ouro útil).

É importante entender cedo que o toque de ouro da IA exigia redesenho, não apenas adoção. Um exemplo, é como criamos aqui o TATe AI não como mais uma ferramenta de IA, mas como resposta direta ao problema do Rei Midas moderno: como transformar potencial em resultado concreto?

Ele atua desde a concepção de produtos até a operação, reduzindo em até 60% o tempo entre ideação e especificação executável. Não acelera apenas código. Acelera decisão, alinhamento e clareza estratégica. Mas a tecnologia é só parte da equação.

O que diferencia é como a usamos: com Governança clara, autonomia responsável e foco em integração sistêmica, não em ganhos pontuais. Transformamos nossa capacidade de entrega em 400% nos últimos três anos porque redesenhamos processos, não porque adicionamos ferramentas.

Aprendi que a diferença entre discurso e execução está na coragem de sair da zona de conforto. Entre estar no grupo dos 88% que usam IA e no grupo dos 6% que geram impacto real está à disposição de abandonar os pilotos eternos e assumir o risco da transformação.

O toque de ouro está disponível. Resta saber quem vai além de tocar, e vai aprender a viver com as consequências.

Por Marco Romero, CEO do Grupo Taking.

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