
A geopolítica, a escassez de talentos e os altos custos de mobilidade estão reformulando os fluxos migratórios e os destinos preferenciais de empresas e profissionais ao redor do mundo. De acordo com o Relatório Global de Tendências Migratórias 2026 da Fragomen, multinacional em imigração corporativa, regiões como o Sul da Ásia, Oriente Médio (com destaque para Emirados Árabes, Arábia Saudita e Catar) e América Latina estão emergindo como novos polos estratégicos de atração de talentos, inovação e investimento. Países como Índia, Vietnã, México, Chile e o próprio Brasil vêm adotando políticas migratórias mais flexíveis para captar mão de obra especializada e se destacam entre os emergentes nessa nova geografia do talento.
A mobilidade internacional é um elemento central das estratégias de negócio em um contexto cada vez mais desafiador. Os casos de mobilidade motivados por crises, como pandemia e guerras, quase dobraram: passaram de 65, no período de 2018 a 2021, para 106 entre 2022 e 2025. Ao mesmo tempo, 74% dos empregadores em todo o mundo relatam dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam, o dobro do registrado há uma década, e a economia global pode enfrentar até 2030 um déficit de 85 milhões de trabalhadores, o que representa cerca de 8,5 trilhões de dólares em receita anual não realizada.
“As estratégias de mobilidade das empresas estão em constante transformação, influenciadas tanto pelas novas configurações geopolíticas quanto pelo aumento expressivo dos custos envolvidos. Hoje, muitas empresas têm priorizado estadias internacionais mais curtas e pontuais para seus colaboradores, em vez de expatriações tradicionais, que exigem pacotes mais robustos, benefícios adicionais e o acompanhamento de familiares. Esses desafios aumentam em um contexto de escassez global de talentos, o que torna a mobilidade internacional uma ferramenta estratégica para garantir acesso a profissionais qualificados e sustentar o crescimento dos negócios”, afirma Diana Quintas, sócia da Fragomen no Brasil.
Esse cenário de escassez de talentos é acompanhado por um aumento expressivo nos custos e na complexidade da mobilidade. O custo médio para realocar um único colaborador já chega a 77 mil dólares quando inclui despesas de educação, moradia e outros custos de vida, podendo ultrapassar 300 mil dólares em designações de longo prazo. No Reino Unido, o salário mínimo para o visto de um profissional qualificado subiu para 41.700 libras, quase 50% a mais do que em 2023. Nos Estados Unidos, novas regras podem adicionar cerca de 100 mil dólares em taxas governamentais a muitos pedidos iniciais de visto H-1B. Mesmo assim, 95% das empresas ainda não conseguem medir adequadamente o retorno sobre o investimento de suas mobilidades internacionais.
No Brasil, iniciativas como o visto para nômades digitais e vistos técnicos simplificados fazem o País começar a recuperar protagonismo como destino de profissionais estrangeiros. O número de vistos de trabalho cresceu 28% em 2025, alcançando mais de 60 mil autorizações, o maior volume desde 2015. “Após décadas com saldo migratório negativo, o país registra crescimento na atração de profissionais em setores como óleo e gás, halal, papel, automobilístico e infraestrutura. Iniciativas como a força-tarefa do Ministério da Justiça para reduzir o tempo de análise de vistos e a retomada do turismo internacional colocam o país em posição estratégica no cenário global”, conta Diana.
Na Coreia do Sul, o K-Tech Pass é voltado para profissionais das áreas de semicondutores e Inteligência artificial. Na Índia, por sua vez, o programa OCI incentiva o retorno de profissionais qualificados ao País. Ainda na Índia, assim como no Vietnã, políticas que equilibram agilidade e conformidade, estão permitindo contratações mais flexíveis e criando ambientes favoráveis para empresas de base tecnológica. Nos Emirados Árabes Unidos, um dos programas mais agressivos para atrair estrangeiros, o Golden Visa, permite residência de longo prazo para talentos, empreendedores e investidores em setores estratégicos como tecnologia, saúde e educação. A Austrália criou o National Innovation Visa para atrair profissionais ligados a setores de inovação, facilitando a entrada e residência de especialistas com alto potencial de impacto econômico.
Esse cenário também é impulsionado pela burocracia excessiva, pelos altos custos de mobilidade e pelo endurecimento das exigências legais para imigração em algumas jurisdições. A imposição de taxas elevadas para H-1B nos EUA e restrições ao acesso à residência permanente no Reino Unido têm desestimulado a entrada de trabalhadores estrangeiros nesses países, por exemplo.
Altos custos e escassez de talentos
Empresas precisam lidar com prazos longos, diferentes interpretações consulares e exigências complexas de Compliance. Segundo o relatório, o aumento das taxas e encargos migratórios levou a um impacto financeiro estimado em US$ 20 milhões em 2024 somente entre clientes corporativos da Fragomen. “A mobilidade internacional se tornou um vetor estratégico e não mais apenas uma demanda operacional. As empresas que conseguirem alinhar suas estratégias migratórias com seus objetivos de negócios terão vantagem competitiva nos próximos anos”, comenta Diana.
Do ponto de vista regulatório, o relatório mostra um mundo mais restritivo para a circulação de talentos. O Índice de Mobilidade de Talentos da Fragomen indica que a média global subiu de 42 para 44 pontos em 2025, o que significa mais barreiras à contratação de profissionais estrangeiros. Mais de 110 países pioraram sua pontuação no último ano, muitos deles por conta de processos mais lentos e aumentos de salários mínimos exigidos, enquanto pouco mais de 20 registraram melhorias significativas. Ao mesmo tempo, diversas economias já sentem pressão no mercado de trabalho: entre 2022 e 2025, o desemprego aumentou 21% no Canadá, 12% no Reino Unido, 10% nos Estados Unidos, Suécia e Austrália e 8% na Alemanha – um quadro que ajuda a explicar o avanço de políticas de preferência a trabalhadores locais e a maior exigência sobre empresas que dependem de mobilidade global.
Países que tratam suas políticas migratórias como ferramentas de desenvolvimento econômico têm obtido mais sucesso na atração e retenção de talentos. O Canadá, por exemplo, estruturou trilhas rápidas de residência permanente voltadas a estudantes internacionais e profissionais das áreas STEM, conectando educação, trabalho e imigração como estratégia de competitividade. Já a Alemanha tem adotado ações específicas para recrutar enfermeiros brasileiros, buscando suprir a escassez de mão de obra no setor de saúde e reforçar seu sistema de cuidados diante do envelhecimento populacional.

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