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Os três dias em que os chineses abalaram o mundo com suas tecnologias de IA

O DeepSeek R1 ganhou notoriedade nesta segunda-feira, quando ultrapassou o ChatGPT em número de downloads; na quarta-feira, o Alibaba lançou o Qwen 2.5-Max

Os três dias em que os chineses abalaram o mundo com suas tecnologias de IA

Muito se tem falado na velocidade da evolução da tecnologia, mas nada se compara a velocidade das notícias sobre Inteligência Artificial nos últimos três dias desta semana. Começou na segunda-feira (27/1), quando chegou a notícia de que os downloads do app de assistente virtual DeepSeek R1 ultrapassaram os do ChatGPT nos EUA e em diversos outros países. O efeito imediato foi a queda das ações de grandes empresas de tecnologia na Bolsa de Valores, estimada em US$ 1 trilhão. No mesmo dia, a chinesa DeepSeek informou que vinha sofrendo ataques cibernéticos e que estava limitando o cadastramento de novos usuários.

Na terça-feira (28/1), enquanto o mundo tentava entender o que era o DeepSeek e o que o tornava tão especial, celebridades, como Sam Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT, declarou que a nova tecnologia era “impressionante” e que isso iria estimular o avanço tecnológico no mundo todo. Já no dia seguinte (29/1), o próprio Altman levantava suspeitas de que a DeepSeek usou dados do ChatGPT para treinar seu chatbot, violando direitos de propriedade intelectual. Ainda na quarta-feira, o mundo foi novamente sacudido com a gigante chinesa Alibaba Cloud anunciando o lançamento de sua IA Qwen 2.5-Max, que ela afirma ser superior ao DeepSeek em vários benchmarks.

Esse cenário exige adaptação, transparência e compromisso com o desenvolvimento responsável da tecnologia. Com o avanço de soluções open source, o futuro da IA se torna mais colaborativo, eficiente e acessível para todos

André Lay, head de Consultoria da Logithink, explica que o que torna o DeepSeek verdadeiramente revolucionário é sua eficiência de custo. Enquanto gigantes como a OpenAI investiram cerca de US$ 100 milhões no treinamento do ChatGPT 4, estima-se que o DeepSeek foi desenvolvido com um investimento de apenas R$ 6 milhões. Esta diferença monumental em custos de desenvolvimento tem implicações profundas para o mercado. “A China adotou uma abordagem diferente, focando em fazer a aplicação consumir cada vez menos poder de processamento, entregando resultados tão bons ou melhores que as soluções americanas, com um consumo energético muito menor”, comenta.

Em sua opinião, para as companhias brasileiras, o DeepSeek representa uma oportunidade sem precedentes. O custo reduzido torna a tecnologia de ponta acessível a pequenas e médias empresas. Além disso, o menor consumo de energia significa custos operacionais reduzidos, um fator fundamental para empresas.

Michel Novelo, head de AMS da Logithink, reforça que o DeepSeek pode ser mais acessível para empresas que buscam soluções especializadas sem pagar por funcionalidades desnecessárias. “É uma tecnologia que, sem dúvida, vai democratizar o acesso à IA e às soluções desenvolvidas por meio da IA no mercado brasileiro”, afirma. “Há espaço para todas as ferramentas, cada uma tem sua aplicabilidade, ou seja, vão se complementar. Cada uma vai acabar sendo mais eficaz em um determinado processo. Há espaço para todas”, conclui.

A beleza do open source

Para Marilyn Hahn, cofundadora e CBPO da Lerian, provedora de soluções de software e Cloud para o mercado de serviços financeiros, o destaque é que a startup DeepSeek conseguiu lançar uma solução open source competitiva, que não só reduz significativamente os custos operacionais, mas também viabiliza novos modelos de negócios baseados em IA. “O open source tem uma relevância enorme nesse contexto, pois promove colaboração, acelera inovações e torna as tecnologias mais acessíveis e adaptáveis às necessidades de diferentes mercados. Isso mostra que, muitas vezes, não se trata de investir mais, mas de investir melhor. Como costumo dizer, há uma beleza no open source que transforma a inovação em algo acessível e escalável”, comenta.

Segundo a executiva, à medida que a Inteligência Artificial avança em ritmo acelerado, o mercado passa por uma transformação significativa. “A DeepSeek reforça essa tendência, tornando a IA mais acessível e impulsionando a inovação global. Estamos entrando em uma nova era, onde a adoção empresarial se expande e a personalização de modelos se torna essencial”, conta. “Esse cenário exige adaptação, transparência e compromisso com o desenvolvimento responsável da tecnologia. Com o avanço de soluções open source, o futuro da IA se torna mais colaborativo, eficiente e acessível para todos”, finaliza.

Pressões contra a China

Para Fabrício Carraro, Program Manager da Alura, ecossistema de educação em tecnologia, o recente lançamento dos modelos de IA v3 e R1 da DeepSeek-AI fizeram o mercado mundial de IA virar de cabeça para baixo. Ele explica que o modelo DeepSeek-R1, assim como o OpenAI o1, é um modelo de raciocínio – ou seja, ele “pensa” por algum tempo antes de começar a dar a resposta, o que geralmente torna as respostas mais confiáveis, mas o processo mais caro. “O grande pulo do gato foi que a DeepSeek conseguiu treinar e oferecer esse modelo, que oferece desempenho ao OpenAI o1, mas com custos muito menores, e também de liberou o modelo de forma open source, o que permite que qualquer pessoa o baixe e faça testes, retreinamentos ou mesmo rode em sua empresa”, comenta.

Para Carraro, apesar de a DeepSeek ter demonstrado criatividade ao buscar soluções inovadoras, o governo dos EUA tem restrições a exportação desses componentes para determinados países, como a China. “A administração de Donald Trump está avaliando até mesmo o fortalecimento dessas sanções, reconhecendo que as proibições no acesso a chips avançados representam um obstáculo significativo. O Dario Amodei, CEO da Anthropic, uma das maiores concorrentes nesse mercado, escreveu publicamente um artigo reiterando que essas sanções devem ser reforçadas por motivos de segurança nacional, para que a China não consiga chegar a IAs muito avançadas que ultrapassem os EUA na liderança desse mercado no mundo e que possam ser usadas para fins militares – que os EUA devem liderar nesse e em todos os quesitos”, conta.

“A Nvidia não está contente com isso, pois mesmo com as restrições anteriores, ainda conseguia vender uma grande quantidade de GPUs para a China por ano. Porém, com o Project Stargate, que promete um investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA nos próximos anos nos EUA, e a Meta também prometendo um investimento de US$ 65 bilhões apenas em 2025, é possível dizer que o mercado de chips continua com muita força, e a Nvidia também”, diz Carraro.

Mercado em evolução

Já na opinião de Renato Paes, CTO da Sipremo e CEO da Dardo, assim como muitas inovações tecnológicas, a IA segue um ciclo previsível de adoção, que geralmente começa com um “boom” inicial, seguido por uma estabilização e, eventualmente, um declínio no impacto ou no fascínio que exerce sobre as pessoas. “Atualmente, a Inteligência Artificial está no auge desse ciclo, impulsionada por avanços rápidos e aplicações impressionantes. No entanto, esse frenesi tende a se dissipar com o tempo. Em breve, a IA será vista não mais como algo quase mágico, mas como uma ferramenta cotidiana, tão essencial e onipresente quanto a eletricidade ou a Internet”, comenta.

“O que se torna evidente nesse cenário é que as gigantes da tecnologia, que hoje detêm a maior fatia do mercado impulsionado pela IA, precisam compreender que a popularização desse conhecimento abriu espaço para novas iniciativas. Startups estão surgindo, grandes empresas estão criando departamentos especializados e a inovação está se descentralizando. Entretanto, enquanto os foguetes de Elon Musk podem dar ré, o mercado de Inteligência Artificial não tende a retroceder tão cedo. Pelo contrário, ele será marcado tanto por avanços revolucionários quanto por desafios significativos, como o desenvolvimento de sistemas autônomos que podem ser utilizados para fins maliciosos”, finaliza.

 

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