Quando comecei a trabalhar com gestão de riscos com terceiros, em 2003, a tecnologia disponível era muito diferente da atual. Planilhas, cruzamentos manuais de informações e análises feitas linha por linha faziam parte da rotina. Ainda assim, era possível entregar resultados. O que mudou ao longo das últimas duas décadas não foi a importância da tomada de decisão, mas a velocidade com que as ferramentas passaram a apoiar esse processo.
Hoje, a Inteligência Artificial é capaz de processar volumes gigantescos de Dados, analisar documentos, identificar padrões e automatizar tarefas que antes consumiam semanas ou meses de trabalho. A evolução é inegável e trouxe ganhos importantes de produtividade e escala para praticamente todos os setores.
Mas existe um paradoxo interessante nesse movimento.
À medida que a Inteligência Artificial se populariza e se torna acessível para empresas de diferentes portes, ela deixa de ser, por si só, um diferencial competitivo sustentável. Afinal, quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, o que realmente passa a diferenciar os resultados é a capacidade de interpretar informações, compreender contextos e transformar Dados em decisões consistentes.
É justamente nesse ponto que o fator humano ganha ainda mais relevância.
O relatório The Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 44% das habilidades essenciais para o trabalho serão transformadas pelos avanços tecnológicos nos próximos anos. Entre as competências que mais ganharão importância, destacam-se pensamento analítico, pensamento crítico e capacidade de resolução de problemas. Ou seja, atributos ligados ao discernimento humano, e não apenas ao domínio da tecnologia.
Estudos conduzidos pelo MIT Center for Collective Intelligence chegam a conclusões semelhantes. Em atividades que envolvem negociação, julgamento, liderança, gestão de mudanças e tomada de decisões complexas, os melhores resultados continuam sendo obtidos pela combinação entre inteligência humana e inteligência artificial, e não pela substituição de uma pela outra.
Na gestão de riscos com terceiros, essa realidade fica evidente diariamente.
Uma Inteligência Artificial pode analisar milhares de documentos em poucos segundos, identificar inconsistências, apontar tendências e até calcular probabilidades de riscos futuros. Porém, decidir se um fornecedor estratégico deve ser homologado, orientado ou substituído envolve variáveis que não cabem apenas em um algoritmo.
Há fatores operacionais, reputacionais, jurídicos e até culturais que exigem experiência, negociação e capacidade de avaliar consequências que extrapolam o que aparece em uma tela. Em muitos casos, a melhor decisão não é a mais óbvia estatisticamente, mas aquela que considera o contexto do negócio e os impactos para toda a cadeia.
Esse raciocínio vale para praticamente qualquer área.
À medida que a Inteligência Artificial assume atividades repetitivas e operacionais, cresce a importância das pessoas capazes de fazer perguntas melhores, interpretar exceções e exercer julgamento sobre cenários que não seguem padrões. O avanço tecnológico não elimina a necessidade de especialistas; pelo contrário, aumenta a relevância de profissionais que saibam utilizar a tecnologia como instrumento de decisão.
Talvez estejamos entrando em uma nova fase da transformação digital. Depois do encantamento inicial com a capacidade das máquinas, começa a surgir uma percepção mais madura: eficiência não é apenas automatizar processos, mas combinar velocidade com discernimento.
A Inteligência Artificial continuará evoluindo e ampliando a produtividade das organizações. Mas, em um cenário em que a tecnologia se torna cada vez mais disponível, o verdadeiro diferencial competitivo volta a estar em algo que nenhuma máquina consegue replicar integralmente: a capacidade humana de interpretar contextos, assumir responsabilidades e tomar decisões em ambientes de incerteza.
No fim, a questão talvez não seja se a Inteligência Artificial substituirá as pessoas, mas quem será capaz de combinar melhor as competências humanas com as capacidades das máquinas. Porque, quando a tecnologia se torna comum, o julgamento humano volta a ser extraordinário.
Por Luciano Bezerra, cofundador e CEO de Gestão de Terceiros na Bernhoeft.






















