

Para Maurício Fernandes, presidente da Dedalus, que concedeu esta entrevista, essa trajetória conjunta não apenas acompanhou a revolução da Computação em Nuvem, ela ajudou a moldá-la no Brasil e na América Latina.
Quais fatores marcaram a parceria?
Iniciamos nossa parceria em meados de 2010, numa época em que a AWS era ainda pequena e desconhecida. A AWS tinha apenas três produtos: EC2 (uma espécie de servidor virtual), S3 (o armazenamento) e o RDS (um appliance de Banco de Dados). Não havia de fato uma visão de que estas ofertas se tornariam uma nova plataforma, que chamamos hoje de Cloud Computing. Tampouco havia a percepção de que serviços adicionais, feitos por parceiros, seriam crucias. Lembro que, em 2010, na primeira vez em que visitei Seattle, comentei que Cloud não eliminaria a necessidade de seres humanos. Isto parecia estranho à AWS, pois a cultura da Amazon.com sempre tinha se baseado no atendimento ao cliente – no caso da Amazon.com, o consumidor – de maneira automática, sem intervenção humana no e-commerce. Mas, para AWS a situação era totalmente diferente: profissionais de TI seriam necessários, mais que isto, seria o maior momento de toda a história dos profissionais de TI. Tenho orgulho de ter influenciado a AWS a perceber isto e ter assim criado seus programas de parcerias que sempre apoiamos, como o título de parceiro Premier e os parceiros Provedores de Serviços Gerenciados, MSP, que foi a base de reconhecimento de um trabalho de sustentação e apoio ao cliente de Cloud para avançar na jornada digital com a AWS. Também pude apoiar a ideia de avançar com a região de atuação no Brasil, explicando à época a enorme oportunidade que haveria em se explorar o mercado brasileiro e latino com uma zona de disponibilidade local. Os investimentos da AWS a partir de final de 2011 na região propiciaram uma evolução digital incrível, com uma profusão de startups que viraram unicórnios, fintechs, bancos digitais e toda uma nova economia que modernizou o mercado brasileiro desde então. Nada disso seria possível sem a presença e investimentos da AWS localmente.
E qual foi o momento mais desafiador?
O maior desafio em toda esta jornada sem dúvida foi acompanhar a evolução tecnológica e o crescimento da AWS. A Dedalus era então uma pequena empresa e crescemos 50x nosso faturamento desde então e esta é a prova de que conseguimos acompanhar a AWS, não só no volume, mas em posicionamento, portfólio e capacidade de atender a um mercado gigantesco em toda a América Latina. Então para a Dedalus, a oportunidade oriunda deste desafio foi de crescimento e de preencher com serviços a lacuna entre a AWS e os clientes que tinham necessidades urgentes de avançar no uso de tecnologias digitais, investindo e crescendo nossa atuação.
Como se capacitou ao longo dessas duas décadas para acompanhar o ritmo de inovação da AWS?
A Dedalus investiu muitos milhões de dólares em capacitação de pessoal, formando no processo centenas de profissionais, muitos deles espalhados em posições estratégicas no mercado. A Dedalus em conjunto com outros parceiros da AWS criou uma iniciativa, a Escola da Nuvem, justamente para ganhar escala neste sentido, formando milhares de profissionais AWS com foco em jovens em situação de vulnerabilidade social e econômica. Hoje o mercado brasileiro está relativamente bem abastecido de profissionais que entendem de Cloud Computing e AWS. Agora o desafio é ganhar escala de tecnologias de Dados e Inteligência Artificial. O começo sem dúvida foi muito desafiador. Havia muitos medos, incertezas e dúvidas sobre a viabilidade da tecnologia de Cloud Computing e tivemos de enfrentar todo o tipo de resistência, como segurança, robustez, latência e até se a Amazon seria justa com o mercado à medida que acumularia dados de terceiros e, portanto, poder em seus data centers. O tempo mostrou que eram questões irracionais, mas no princípio foi muito árduo. Assim, os primeiros clientes de AWS foram notadamente empresas digitais, que viam a real oportunidade de se avançar com Cloud Computing rapidamente. As vantagens eram enormes e com o tempo o restante do mercado se rendeu aos benefícios que a AWS trazia. Muitas pessoas e empresas ajudaram a AWS no Brasil a fazer este processo de convencimento, das quais tenho orgulho de destacar a Dedalus.
Nesse sentido, ainda há lacuna a ser fechada? Onde?
Como disse acima, o grande desafio foi em capacitação e formação de gente. Mas também tivemos de nos dedicar a preparar a Dedalus para ganhar escala. Isto foi conseguido com uma constante e inexorável revisão de processos, de estruturas organizacionais e fundamentalmente, de automação. Assim como infraestrutura em Cloud, serviços em Cloud requer muita automação, que hoje inclui Inteligência Artificial. Isto nos permite dar os passos seguintes no domínio da tecnologia e na gestão do ambiente de nossos clientes sem perder qualidade e personalização de cada um. Os clientes da Dedalus são, em sua maioria, empresas de médio e grande porte que hoje dependem essencialmente de Cloud. Nosso trabalho de sustentação destes ambientes é missão crítica. Por isso, tomamos medidas realmente especiais para garantir perfeição com volume, agilidade com profundidade, profissionalismo com empatia, criatividade com responsabilidade. Os números mostram que conseguimos fazer um bom trabalho conectando AWS com estes milhares de clientes desde então.
Como avalia os modelos de entrada no mercado por meio do AWS Marketplace?
O grande legado histórico da Amazon.com foi eliminar a intermediação no mercado. É natural que a AWS seguisse o mesmo caminho e isto é muito bom para todos nós. Lembro das primeiras discussões sobre o AWS Marketplace nos idos de 2012, sempre foi um projeto central que o restante do mercado busca copiar. Não há mais valor agregado, tampouco lucro em intermediação. Parceiros da AWS devem se focar em agregar valor à tecnologia com serviços próprios, é o que repito há 16 anos e que vem se tornando uma realidade cada vez maior. O mercado requer serviços que complementem a tecnologia AWS, aí está o sucesso do ecossistema. A diversidade e amplitude destes serviços permite que parceiros coexistam no mesmo cliente de maneira natural. Não há mais espaço nem tempo para concorrência, estamos numa era de cooperação e de construção de um mundo mais digital e melhor.
Se a AWS dobrar o ritmo de inovação nos próximos anos, a Dedalus consegue acompanhar?
A Dedalus não somente está preparada, mas entusiasmada com esta possibilidade, que vai acontecer naturalmente. Conseguimos criar uma estrutura de operação e de inovação que escala muito bem e que tem demonstrado robustez nestes 16 anos. Com Inteligência Artificial, subimos ainda mais a barra deste processo. Volte daqui a uns dez anos e veja o que nós, a AWS e nossos clientes conseguimos fazer. E, como todos dizemos, “ainda é dia um”, há muito trabalho bom para seguirmos apoiando o mundo a utilizar tecnologias digitais melhor, com mais responsabilidade e visando o bem de toda a humanidade.
E qual o maior risco que você enxerga para o ecossistema AWS nos próximos dez anos?
O fim da intermediação e necessidade de novos serviços vai requerer do ecossistema muito planejamento e uma execução exemplar. O mercado não vai esperar ninguém, clientes precisam e vão procurar quem dê solução às suas novas demandas. É importante estarmos todos alinhados e sensíveis a estas mudanças para que todos possam avançar com coerência. O foco da AWS no ecossistema, algo que foi criado do zero nestes vinte anos, é nosso farol. Eu gostaria ainda de finalizar registrando que, em 37 anos de mercado, eu e a Dedalus apoiamos diversas empresas a se posicionarem no pujante mercado brasileiro. Temos muita história nesta jornada de evolução do mercado e vivenciamos momentos incríveis. Sem dúvida nossa história com a AWS é o caso mais dramático, impactante para o mercado e para a jornada de milhares de profissionais de tecnologia, com passagens pela AWS, pela Dedalus, por outros parceiros e por clientes. Sensação de missão cumprida e de que o melhor está por vir.
crédito da foto: Nanda Ferreira
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