book_icon

Tecnologia verde e Conectividade: os novos pilares da infraestrutura digital global

A nova corrida pela infraestrutura digital já não se mede só por velocidade ou capacidade. A vantagem competitiva vai para quem consegue escalar Conectividade com pegada ambiental menor, unindo cabos submarinos, redes e Data Centers à eficiência energética, renováveis e automação. Esse é o caminho para sustentar crescimento econômico, inovação e soberania digital sem ampliar emissões.

O dilema do século XXI: crescer conectando mais e emitindo menos
À medida que Nuvem, IA e IoT aceleram, a demanda por rede e processamento explode e, com ela, o consumo de energia e as emissões do setor de TIC. Estimativas recentes apontam que o setor de TIC responde por pelo menos 1,7% das emissões globais, com a literatura situando o intervalo entre 1,5% e 4%. O desafio não é desacelerar a digitalização, e sim torná-la progressivamente mais limpa.

Eficiência como vantagem competitiva, não só Compliance
Incorporar princípios de tecnologia verde, do desenho eficiente ao uso de renováveis e IA para otimização, reduz OPEX, aumenta resiliência e atende a critérios ESG cobrados por clientes e investidores. Operadoras e provedores que atacam energia como alavanca estratégica colhem ganhos de 15% a 30% em custos energéticos quando combinam Automação, upgrades tecnológicos e otimização de sites.

No universo móvel, 5G Advanced e IA viabilizam mecanismos como sleep mode e gestão dinâmica de tráfego, ajudando a fazer mais com menos energia — com regiões como a Europa já demonstrando reduções relevantes de emissões operacionais com eficiência e renováveis.

Cabos submarinos: a espinha dorsal invisível da economia digital
Pouca gente vê, mas mais de 99% do tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos, que é a base de serviços críticos, de transações financeiras a plataformas de IA e nuvem. Por isso, diversidade de rotas, padrões de sustentabilidade e eficiência energética em pontos de ancoragem (landing points) e interconexões tornaram-se decisivos. E a relevância só cresce: organismos internacionais e a própria indústria reforçam a necessidade de resiliência, cooperação e inovação para proteger essa malha crítica que conecta continentes e economias.

Políticas públicas e cooperação: alavancas para acelerar a transição
A consolidação de uma infraestrutura digital sustentável exige coordenação entre empresas, governos e organismos internacionais, alinhando inovação, transparência e padrões de eficiência. No Brasil, a pauta de cabos submarinos e Data Centers avançou na agenda de Estado, com consultas públicas e propostas de incentivos que buscam atrair investimentos, diversificar rotas e fortalecer a soberania digital.

Padrões para o futuro: o que vai diferenciar líderes
A infraestrutura digital que liderará a próxima década terá três atributos centrais: eficiência (energia e água), resiliência (rotas e redundância) e sustentabilidade (renováveis, circularidade e transparência de Dados). Essa combinação habilita crescimento econômico com responsabilidade ambiental e inclusão social.

Números relevantes
A importância desse debate pode ser entendida por alguns números que ajudam a dimensionar o tamanho do desafio e da oportunidade. Hoje, mais de 99% do tráfego internacional de Dados circula por cabos submarinos, o que reforça o papel dessa infraestrutura como a espinha dorsal da economia digital global.

Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado da economia digital traz consigo um impacto energético significativo. Em 2022, o consumo elétrico global de data centers foi estimado em cerca de 460 TWh. Caso o avanço de tecnologias como Inteligência Artificial e aplicações intensivas em processamento continue no ritmo atual, esse consumo pode alcançar entre 650 e 1.050 TWh até 2026, caso os ganhos de eficiência não acompanhem a expansão da demanda.

Outro Dado que merece atenção é o peso crescente do setor de tecnologia da informação e comunicação nas emissões globais. Estimativas indicam que o setor já responde por pelo menos 1,7% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto diferentes estudos situam esse intervalo entre 1,5% e 4%.

No caso do Brasil, esse debate ganha contornos estratégicos dentro da agenda de política pública. A proposta de uma Política Nacional de Cabos Submarinos busca ampliar rotas e pontos de ancoragem, além de atrair investimentos para fortalecer a conectividade internacional do país. A iniciativa também enfatiza aspectos de segurança, sustentabilidade e governança, reconhecendo a importância dessa infraestrutura para a economia digital e para a soberania tecnológica.

Diante desse cenário, algumas ações práticas se tornam prioritárias. A primeira delas é a descarbonização do chamado “stack digital”, por meio da contratação de energia renovável, acordos de compra de energia de longo prazo (PPAs) e maior flexibilidade locacional e operacional para cargas de Data Centers. Outra frente fundamental é a otimização por design: medir indicadores como PUE e WUE, adotar tecnologias avançadas de resfriamento e utilizar automação e Inteligência Artificial para orquestrar capacidade e implementar mecanismos de economia energética, como os chamados “sleep modes” em redes e infraestruturas de processamento. Por fim, torna-se cada vez mais necessário elevar o nível de transparência em relação às práticas ambientais, com metas climáticas baseadas na ciência, relatórios padronizados e indicadores de eficiência disponíveis em tempo real para clientes, investidores e reguladores.

Não há Transformação Digital duradoura sem transformação energética. O setor de telecomunicações pode e deve liderar essa mudança, conectando mais, com menos impacto.

Por Hemil Ribeiro, líder de Infraestruturas, Angola Cables.

As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicados refletem exclusivamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da Infor Channel ou qualquer outros envolvidos na publicação. Todos os direitos reservados. É proibida qualquer forma de reutilização, distribuição, reprodução ou publicação parcial ou total deste conteúdo sem prévia autorização da Infor Channel.
Revista Digital