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Da digitalização à autonomia: o próximo passo da transformação financeira

A indústria financeira vive uma transformação estrutural que vai além da digitalização. Impulsionado pela inteligência artificial, pela integração entre plataformas e pelo uso intensivo de dados, o setor avança para um modelo em que sistemas passam a participar ativamente das decisões e das operações.

Nos últimos anos, o sistema financeiro deixou de operar apenas por canais digitais e passou a estruturar uma base tecnológica capaz de sustentar novas formas de interação econômica. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, cerca de 82% das transações financeiras no Brasil já ocorrem por canais digitais. O dado evidencia o nível de maturidade tecnológica do setor e indica que o ambiente está preparado para uma nova etapa, baseada em automação, inteligência e conectividade.

A partir dessa base, começa a se consolidar um novo modelo organizacional. O conceito de Autonomous Business descreve organizações que operam com plataformas capazes de aprender continuamente a partir de dados e ajustar suas operações com mais velocidade. Assim, a inteligência artificial deixa de ser apenas um apoio e passa a integrar o núcleo das decisões, dos produtos e dos serviços.

No setor financeiro, essa evolução se traduz na ideia de Autonomous Banking. O conceito descreve instituições preparadas para atuar em ecossistemas nos quais interações econômicas podem ocorrer tanto entre pessoas quanto entre sistemas digitais. Algoritmos passam a executar tarefas financeiras, interpretar dados e conduzir operações com níveis crescentes de autonomia. Projeções do Gartner indicam que, até 2028, cerca de 25% das interações entre instituições financeiras e usuários poderão ser conduzidas por máquinas, o que aponta para uma mudança relevante na forma como o relacionamento financeiro tende a evoluir.

Esse movimento ganha força com o avanço dos chamados machine customers, sistemas capazes de contratar serviços, realizar pagamentos e executar transações financeiras em ambientes digitais conectados. Esses agentes interagem diretamente com plataformas financeiras, ampliando a presença da inteligência artificial nas decisões econômicas do dia a dia. O Gartner projeta que, até 2029, aproximadamente 15% das novas contas financeiras poderão ser abertas por esses sistemas.

Outro vetor relevante dessa transformação está na chamada economia programável, que integra ativos financeiros a sistemas digitais inteligentes. Tecnologias como moedas digitais, tokens e stablecoins ampliam a capacidade de programar fluxos financeiros dentro de plataformas tecnológicas. Pagamentos, contratos e transferências passam a seguir regras previamente definidas, permitindo que dados, algoritmos e infraestrutura financeira operem de forma coordenada e praticamente instantânea.

Nesse contexto, o Open Finance se consolida como um elemento importante dessa evolução. Ao permitir o compartilhamento seguro e padronizado de dados financeiros entre instituições, amplia a integração do sistema e viabiliza experiências mais personalizadas e competitivas. Mais do que estimular a concorrência, cria as condições para um ambiente realmente conectado, em que diferentes plataformas e agentes, inclusive digitais, passam a interagir de forma mais fluida.

O relacionamento financeiro passa a exigir cada vez mais decisões baseadas no dado certo, no momento adequado. Produtos tornam-se mais adaptáveis, com limites e condições ajustados por modelos de inteligência artificial alimentados por padrões de comportamento. Ao mesmo tempo, identidades digitais descentralizadas e novos mecanismos de confiança entre humanos e sistemas ganham relevância. Em paralelo, desafios como deepfakes, riscos algorítmicos e governança de dados passam a exigir novas abordagens regulatórias e de supervisão.

A convergência entre inteligência artificial, dados e plataformas digitais está redesenhando a arquitetura do sistema financeiro. Infraestruturas baseadas em arquiteturas composable, governança de dados mais inteligente e o uso de agentes digitais passam a sustentar a próxima geração de serviços financeiros. Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser apenas um meio e passa a ocupar um papel central na forma como as instituições operam e se relacionam.

Para o cooperativismo financeiro, esse movimento abre uma oportunidade relevante. Em um ambiente mais automatizado, a combinação entre eficiência tecnológica, proximidade e confiança pode se tornar um diferencial importante. A adoção de modelos mais autônomos não elimina o fator humano, mas reposiciona seu papel, com maior foco em supervisão, curadoria e construção de relações de confiança.

À medida que o sistema financeiro se torna mais autônomo, a tecnologia tende a definir a eficiência das operações. A confiança, por outro lado, continua sendo determinante para a relevância das instituições. Olhando para isso, o cooperativismo tem espaço para ampliar seu protagonismo de forma consistente ao integrar inovação tecnológica com uma atuação orientada à prosperidade compartilhada em um ambiente cada vez mais conectado, programável e inteligente.

Por Alexandre da Silveira, diretor de Tecnologia da Unicred do Brasil

 

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