A corrida não é mais por metros quadrados. Hoje, a disputa é por megawatts, subestações e arquitetura térmica. O Brasil tem condições reais de liderar esse jogo uma vez que a Inteligência Artificial mudou a régua e em vez de discutir metragem de sala, disputamos megawatts firmes, interconexão de baixa latência e projetos “liquid ready”.
Não é retórica. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o consumo elétrico global de Data Centers mais que dobrará até 2030, passando de cerca de 415 TWh em 2024 para aproximadamente 945 com a IA como principal acelerador. Um movimento que tira o tema do escopo de “um simples projeto de TI” e o coloca no centro das discussões sobre energia estratégica e risco operacional.
Isso é algo importante agora, pois os ciclos encurtaram. Clusters de IA exigem revisões contínuas de energia, rede e desenho térmico. Não dá mais para planejar no compasso do Data Center tradicional e podemos dizer que o gargalo, cada vez mais, é elétrico. A vantagem competitiva não está apenas em comprar mais GPU, mas em garantir capacidade energética confiável, eficiente e sustentável.
Nesse cenário, o Brasil tem uma vantagem estrutural relevante, desde que seja tratada como ativo estratégico. Em 2024, 88,2% da matriz elétrica brasileira foi renovável; com energias eólicas e solar que somam cerca de24% da geração e uma oferta interna próxima de 762,9 TWh. Uma base limpa que viabiliza PPAs “verdes” e fortalece o ESG das operações e data centers instalados no país. Na prática, com energia limpa e abundante, o país pode competir como hub “verde” de IA, desde que planeje transmissão, assegure contratos de longo prazo e expansão com responsabilidade.
O desafio, no entanto, não é apenas elétrico, mas também térmico. Cargas de IA já operam com densidades entre 50 e100 kW ou mais por rack, o que torna o “liquid cooling” praticamente inevitável em novos projetos e retrofits de alta densidade. O setor aponta predomínio dessa tecnologia na virada da década, com impacto direto em PUE (Power Usage Effectiveness), principal métrica de eficiência energética em data centers.
Um cenário que muda o desenho das instalações. As salas de alta densidade passam a exigir rotas de água, unidades de distribuição de líquido (CDUs -Coolant Distribution Units), assim como redundância e segmentação térmica por zona crítica. Ao mesmo tempo, a rede leste–oeste (east–west) precisa suportar um nível padrões de 400/800G, além de tecnologias como RDMA e InfiniBand, para acompanhar o ritmo das cargas de IA.
A Inteligência Artificial, porém, não representa apenas um novo consumo energético. Quando aplicada à operação, ela também pode gerar ganhos relevantes. Sistemas de controle preditivo podem reduzir entre 15 e 25% do consumo de energia de resfriamento. Há casos públicos com até 40% de redução no cooling e 15% de melhora em PUE com o uso da IA. Para capturar esses ganhos é necessário investir em telemetria granular, integração entre OT e TI, revisão de setpoints e Governança dos Dados operacionais para treinar e sustentar os modelos.
O movimento já é visível no mercado brasileiro. A Scala AI City, no Rio Grande do Sul, dispõe de uma autorização para conexão de 5 GW no SIN (sistema elétrico nacional) e campus projetado para racks maiores que 150 kW com resfriamento líquido, em fase inicial de 54 MW anunciada. Em São Paulo, a Equinix segue em expansão contínua no eixo São com o SP6, em Tamboré, em construção e ampliações no SP4 e SP5; com aumento da capacidade e interconexão de baixa latência para IA. Já a parceria entre Ascenty e Casa dos Ventos prevê mais de US$ 500 milhões para autoprodução de 110 MW médios, reforçando previsibilidade de custos, redução de riscos e metas ESG, com operação prevista para 2027.
Para Canais e Integradores as oportunidades são imediatas. O primeiro erro, ao falar de infraestrutura para IA, é subestimar o resfriamento. Localizar pontos de calor e modernizar a infraestrutura deixou de ser melhoria incremental e passou a ser condição básica para suportar racks cada vez mais potentes. Na operação, a gestão reativa perdeu espaço. Monitoramento em tempo real e uso de IA para antecipar falhas e otimizar o consumo energético diferenciam ambientes resilientes de operações vulneráveis a paradas e desperdícios.
A discussão sobre energia também mudou de patamar. Contratos de longo prazo e reforço da infraestrutura elétrica deixaram de ser decisões puramente financeiras para se tornarem estratégias de continuidade do negócio. Sem previsibilidade energética, não existe escalabilidade real para cargas de IA. O mesmo vale para a rede. Aplicações de IA expõem, de forma implacável, latências e gargalos antes imperceptíveis. Aumento de velocidade e redução de latência deixaram de ser diferenciais técnicos e se tornaram requisitos mínimos de competitividade. Enquanto em ESG, a lógica é semelhante. Eficiência energética, uso de água e emissões de carbono precisam ser medidos com indicadores auditáveis. Quem não consegue comprovar desempenho ambiental perde espaço com clientes, investidores e parceiros.
Diante desse cenário, os próximos 90 dias podem ser decisivos. A liderança precisa revisar a folga elétrica real, contratos e planos de subestação, além de avaliar modelos de PPA ou autoprodução. No eixo térmico, é fundamental medir a densidade por sala e preparar a infraestrutura para resfriamento líquido com redundância adequada.
Já na operação, pilotos de Automação preditiva em sistemas de climatização, acompanhados por indicadores semanais, são o caminho mais rápido para transformar eficiência em resultado mensurável. Em rede, identificar gargalos no tráfego interno, especialmente na comunicação entre GPUs, é essencial para extrair valor das cargas de IA.
Os indicadores que realmente importam agora são claros: PUE, WUE, densidade por rack, relação entre consumo de resfriamento e carga de TI, indisponibilidade térmica evitada e emissões de CO₂ por megawatt-hora.
A nova disputa dos Data Centers não é por espaço físico, mas por energia, eficiência e capacidade de adaptação. AIA virou infraestrutura e essa infraestrutura agora é energia, térmica e Automação. O Brasil pode ser o hub verde da próxima década, mas apenas se construir capacidade antes que a demanda transforme vantagem em gargalo.”
Por Rodrigo Guercio, vice-presidente de Negócios Corporativos da Positivo Tecnologia.

Leia nesta edição:

CAPA - TECNOLOGIA
Arquitetura neuromórfica, a plataforma inspirada no cérebro humano

MERCADO
O bom negócio da locação de equipamentos de TI

SEGURANÇA DIGITAL
Dilemas e oportunidades de blockchain para identidade
EXCLUSIVA DIGITAL

VERSÃO LATAM
Agora a versão digital também é LATAM
Baixe o nosso aplicativo

















