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Cresce ciberataques no Brasil e crime digital já opera como indústria global

Para o CISO da Claranet do Brasil, o fenômeno reflete a consolidação do modelo Cybercrime as a Service (CaaS), no qual ataques são empacotados, comercializados e operados como serviços

Cresce ciberataques no Brasil e crime digital já opera como indústria global

A era de um hacker solitário, agindo escondido em seu quarto, há muito deixou de refletir a realidade das invasões digitais. Hoje, o cibercrime se consolidou como uma indústria global estruturada, escalável e orientada por lucro, e o Brasil está no centro dessa transformação.

Segundo o estudo Cenário Global de Ameaças 2026, do FortiGuard Labs (Fortinet), o País foi alvo de mais de 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos somente em 2025, concentrando 84% de todas as investidas registradas na América Latina. No ranking global, o Brasil já figura entre os sete países mais atacados do mundo, consolidando-se como alvo estratégico do crime digital.

Para Luciano Simão, Chief Information Security Officer (CISO) da Claranet do Brasil, o fenômeno reflete a consolidação do modelo “Cybercrime as a Service” (CaaS), no qual ataques são empacotados, comercializados e operados como serviços. “Kits de ransomware, ferramentas de phishing e acessos a redes corporativas circulam livremente na dark web, reduzindo drasticamente a barreira de entrada para criminosos”, afirma o executivo.

No Brasil, ainda é comum que a cibersegurança seja vista como centro de custo, uma visão que se tornou obsoleta diante de ataques industrializados e prejuízos que ultrapassam milhões de reais

O resultado é uma escalada sem precedentes onde organizações brasileiras enfrentam, em média, 3.520 ataques por semana, número significativamente superior à média global, o que leva o país a ocupar posições alarmantes nos rankings internacionais, entre os líderes mundiais em ataques de ransomware e detecções de malware. O impacto financeiro acompanha essa tendência considerando que o custo médio de uma violação de dados já supera R$ 7 milhões, enquanto pagamentos de resgate podem alcançar cifras milionárias. Em muitas organizações, o ransomware deixou de ser um evento excepcional para se tornar uma ameaça constante.

IA sofistica e dá velocidade aos cibercrimes

A Inteligência Artificial amplia ainda mais o desafio, transformando o cibercrime em três dimensões críticas: velocidade, escala e eficiência. Ataques que antes exigiam semanas de preparação agora podem ser planejados em minutos. Ferramentas baseadas em IA permitem automatizar campanhas de phishing altamente personalizadas, identificar vulnerabilidades com maior precisão e ampliar o alcance das ofensivas digitais.

O Brasil reúne características que o tornam especialmente atrativo para os criminosos como elevada digitalização dos serviços financeiros, ampla adoção de sistemas como o Pix e maturidade desigual das práticas de segurança, uma combinação de alto valor transacional, grande superfície de ataque e defesas ainda em evolução.

Diante desse cenário, a resposta ao cibercrime não pode se limitar a investimentos individuais das empresas. “É preciso atuação coordenada entre setor privado, governo, academia e órgãos reguladores”, diz Simão. Nos últimos anos, o Brasil deu passos importantes nessa direção, com a criação da Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber 2025) e do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), iniciativas que reúnem representantes do governo, do setor privado, de instituições de ensino e pesquisa e de entidades como ANPD, NIC.br e CERT.br, estruturadas em torno de quatro pilares estratégicos: sociedade, infraestrutura, cooperação e soberania.

Apesar da evolução institucional, o especialista aponta que o arcabouço regulatório brasileiro, que inclui LGPD, ANPD, E-Ciber 2025 e CNCiber, ainda apresenta lacunas, como baixa padronização dos requisitos de segurança entre setores, aplicação desigual das diretrizes existentes e incentivos limitados para pequenas e médias empresas investirem em proteção digital. “O País ainda opera de forma mais reativa do que preventiva. Setores como financeiro, telecomunicações e grandes empresas de tecnologia já apresentam níveis avançados de maturidade em cibersegurança, enquanto pequenas e médias empresas, órgãos públicos estaduais e municipais e cadeias de suprimentos seguem como pontos vulneráveis que demandam maior preparação”, avalia o executivo.

Para Simão, as organizações precisam evoluir na mesma velocidade, ou mais rapidamente, que os atacantes, o que significa incorporar Inteligência Artificial às estratégias de defesa, investir em automação, reduzir drasticamente os tempos de resposta a incidentes e tratar a segurança como prioridade estratégica do negócio. A construção de um ambiente digital mais seguro dependerá do fortalecimento da cooperação entre governo, iniciativa privada, entidades de apoio ao ecossistema e sociedade em geral, mais do que atender exigências regulatórias, será necessário transformar compliance em resiliência real.

O especialista ressalta ainda que os impactos do cibercrime já são sentidos diretamente pelo cidadão, por meio de golpes digitais, fraudes financeiras e exposição indevida de dados pessoais. “Embora a LGPD represente um avanço relevante na proteção do indivíduo, ainda há um descompasso entre a sofisticação das ameaças e a capacidade de defesa da população, o que reforça a necessidade de que a proteção de dados e a consciência digital deixem de ser apenas uma obrigação regulatória e passem a ser um pilar essencial de confiança na economia digital”, analisa.

“Independentemente do segmento, uma mudança cultural não pode mais ser adiada, a questão não é mais se uma organização será alvo de um ataque, mas quão preparada ela estará para resistir, responder e se recuperar quando esse momento chegar. No Brasil, ainda é comum que a cibersegurança seja vista como centro de custo, uma visão que se tornou obsoleta diante de ataques industrializados e prejuízos que ultrapassam milhões de reais”, analisa Simão. “Segurança digital é um investimento estratégico, fundamental para a continuidade dos negócios, a proteção da economia e a preservação da confiança na sociedade digital”, finaliza o executivo.

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