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A morte do firewall

Em várias ocasiões, o firewall foi condenado a desaparecer. No início da década de 2000, dizia-se que a inspeção de aplicativos tornaria obsoleta a inspeção tradicional de pacotes. Depois, o boom dos dispositivos móveis prometia acabar com o próprio conceito de perímetro. Mais tarde, veio a adoção em massa da Nuvem, e muitos afirmavam que os dispositivos físicos perderiam toda a relevância. Por fim, o modelo Zero Trust parecia proferir a sentença definitiva, apresentando o firewall como uma relíquia de um mundo que já não existia.

No entanto, o firewall nunca desapareceu.

Ele continua fazendo parte das arquiteturas modernas de Segurança Cibernética e segue evoluindo. A questão, então, não é mais se o firewall se tornou obsoleto, mas por que nenhuma das grandes transformações na área de Segurança conseguiu substituí-lo.

A resposta é simples: as previsões não eram descabidas. Simplesmente estavam incompletas.

É verdade que surgiram novas arquiteturas de Segurança: tecnologias como ZTNA, autenticação baseada em identidade, gateways web na Nuvem e isolamento do navegador resolveram limitações que o firewall tradicional não conseguia suprir. Também é verdade que muitas funções, como filtragem de DNS, inteligência contra ameaças, análise de comportamento ou sandboxing, hoje são executadas de forma mais eficaz a partir de plataformas na nuvem. A Segurança evoluiu porque as organizações também evoluíram, com aplicativos distribuídos entre múltiplas Nuvens, usuários remotos e modelos híbridos de trabalho.

Mas há um princípio que nunca mudou: o tráfego ainda precisa passar por algum lugar, e esse ponto por onde o tráfego circula continua sendo o local onde as organizações precisam aplicar suas políticas de Segurança.

É por isso que o firewall não desapareceu. O que aconteceu foi que ele mudou de forma.

Primeiro, ele evoluiu junto com a SD-WAN, integrando conectividade e segurança em uma única plataforma. Posteriormente, passou a fazer parte das arquiteturas SASE e SSE, compartilhando responsabilidades com serviços distribuídos na nuvem. Atualmente ele entra em uma nova etapa impulsionada pela Inteligência Artificial, na qual deixa de ser apenas um dispositivo baseado em regras para se tornar um ponto de aplicação de inteligência alimentado pela Nuvem.

Cada uma dessas etapas foi apresentada como “A Morte do Firewall”. No entanto, todas acabaram sendo o prelúdio de sua próxima evolução.

A explicação é que existem funções que ainda dependem de um dispositivo capaz de atuar exatamente onde o tráfego circula. Ou seja: a maioria das organizações continua operando infraestruturas híbridas onde coexistem aplicativos na Nuvem, sistemas legados, tecnologia operacional, edifícios inteligentes e redes locais. Boa parte desse tráfego nunca sai da infraestrutura da organização e precisa ser inspecionado com baixa latência e em tempo real.

O mesmo ocorre com o tráfego criptografado. Hoje, mais de 95% das comunicações corporativas utilizam TLS, incluindo muitas das empregadas por invasores para distribuir malware, extrair informações ou se comunicar com sua infraestrutura de comando e controle. A inspeção desse tráfego, especialmente quando permanece dentro da rede corporativa, continua exigindo um ponto de controle integrado à própria infraestrutura.

Isso vale também para a segmentação de redes, a proteção de ambientes OT e IoT ou em caso de interrupção da conectividade WAN. São várias situações em que a eficácia da segurança depende da existência de um dispositivo que aplique as políticas de segurança localmente.

O futuro do firewall não consiste em fazer absolutamente tudo.

As fontes de inteligência sobre ameaças, as atualizações de assinaturas, a análise de comportamento e outros recursos continuarão aproveitando a escala oferecida pela nuvem. Mas, quando necessário, entrará em campo o firewall, executando ações localmente. Quem tentar fazer tudo a partir do próprio dispositivo dificilmente conseguirá acompanhar o ritmo de um cenário de ameaças que evolui a cada dia.

A Inteligência Artificial está acelerando ainda mais essa transformação; atualmente, os invasores estão utilizando IA para automatizar campanhas de phishing, investigar vulnerabilidades e adaptar malware com uma velocidade sem precedentes. A defesa responde com plataformas capazes de aprender continuamente com o comportamento observado em milhares de implantações e distribuir essa inteligência em tempo real. O firewall deixa, assim, de depender exclusivamente de regras e assinaturas para se tornar o ponto de execução local de uma inteligência hiper distribuída.

O poder do firewall de atuar localmente é fortalecido pela disseminação da Internet das Coisas. Fábricas, hospitais, empresas de serviços públicos e infraestruturas críticas dependem de equipamentos com ciclos de vida de décadas que não podem ser facilmente migrados para a nuvem nem executar agentes de segurança. Nesses ambientes, o firewall continua sendo o mecanismo que segmenta, inspeciona e controla o tráfego da rede.

Outro vetor de valorização do firewall é a conformidade regulatória: normas como PCI-DSS, HIPAA ou NERC CIP continuam exigindo controles de Segurança no nível da rede. Isso torna o firewall não apenas uma decisão tecnológica, mas também regulatória.

Talvez o maior erro ao longo de todos esses anos tenha sido enquadrar o debate como uma escolha entre a Nuvem e o firewall. A realidade demonstra que ambos se complementam. A Nuvem oferece escala, inteligência e identidade, enquanto o firewall proporciona inspeção local, segmentação, resiliência e proteção exatamente onde o tráfego realmente circula.

O firewall não está desaparecendo. Ele está se especializando. Isso acontece em um cenário de Segurança que se torna cada vez mais complexo com o passar dos anos. O firewall, um dispositivo com uma função clara e insubstituível, é um dispositivo com um grande futuro pela frente.

Por Chandrodaya Prasad, vice-presidente sênior e diretor de produtos da SonicWall.

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