Durante décadas, quando imaginávamos o futuro da mobilidade, a imagem era sempre a de carros cada vez mais inteligentes, equipados com sensores, câmeras e radares capazes de enxergar tudo ao redor. Hoje este cenário já não é suficiente porque existe outra revolução em andamento. O veículo deixa de observar o ambiente e passa a conversar com ele.
Essa mudança, que vem ganhando destaque entre pesquisadores e montadoras, foi debatida no Painel Global de Mobilidade do IEEE SA, realizado no início deste ano. Durante o evento, muito se falou sobre a chamada IA Agêntica começar a sair do campo da pesquisa para ocupar um papel central no futuro da indústria automotiva.
Embora o nome pareça complexo, o conceito pode ser explicado de forma simples. A Inteligência Artificial que conhecemos hoje age de forma reativa, ao identificar um obstáculo, emitir um alerta de ponto cego, reconhecer uma faixa ou acionar uma frenagem de emergência quando detecta um risco iminente. A IA Agêntica interpreta o contexto, toma decisões de forma autônoma e atua em cooperação com outros sistemas inteligentes.
É como a diferença entre um motorista que apenas reage ao trânsito e outro que consegue prever o que acontecerá alguns segundos antes.
Essa capacidade ganha uma dimensão completamente nova quando combinada ao conceito de V2X (Vehicle-to-Everything), tecnologia que permite ao veículo trocar informações em tempo real com outros carros, semáforos, sensores instalados na via, centros de controle de tráfego e até dispositivos utilizados por pedestres.
Na prática, isso significa que um automóvel pode ser avisado da aproximação de uma motocicleta escondida atrás de um caminhão, receber informações sobre um pedestre que vai atravessar uma esquina sem visibilidade ou saber que um veículo está prestes a avançar um cruzamento antes mesmo de qualquer um dos motoristas conseguir enxergar o outro.
O carro deixa de depender exclusivamente dos próprios sensores e passa a compartilhar inteligência com toda a cidade. É uma mudança importante porque muitos acidentes acontecem justamente em situações nas quais o problema não é a velocidade de reação do motorista, mas a ausência de informação. Não se evita um risco que ainda não pode ser visto.
Os estudos apresentados pelo IEEE mostram que, quando diversos veículos atuam como agentes conectados e compartilham dados por meio de redes de comunicação de baixa latência, como o 5G NR, ocorre uma ampliação significativa da percepção do ambiente. O automóvel passa a enxergar além da próxima curva, atrás de obstáculos físicos e em cruzamentos sem visibilidade direta. Enquanto isso, o tempo necessário para calcular uma situação de risco diminui drasticamente, permitindo que decisões sejam tomadas em frações de segundo.
Essa inteligência coletiva pode representar um salto tão relevante para a Segurança quanto foram, no passado, o cinto de Segurança, o airbag ou os sistemas eletrônicos de estabilidade. Mas essa transformação também traz novos desafios.
Quando vários agentes de Inteligência Artificial passam a tomar decisões simultaneamente, como garantir que todos falem a mesma língua? Como assegurar que um veículo de uma fabricante consiga interpretar corretamente as informações enviadas por outro? E, principalmente, como garantir que todas essas decisões sejam confiáveis e seguras?
Afinal, tão importante quanto desenvolver algoritmos sofisticados será criar padrões técnicos e regulatórios capazes de permitir que todo esse ecossistema funcione de forma integrada.
No Brasil, essa discussão ainda parece distante da realidade cotidiana. No entanto, ela merece atenção desde já. O avanço da Conectividade, da infraestrutura digital e das redes móveis cria condições para que soluções desse tipo comecem a ser incorporadas gradualmente, especialmente em grandes centros urbanos.
Vale lembrar que a Inteligência Artificial aplicada à mobilidade não se limita aos carros totalmente autônomos. Ela já pode trazer benefícios importantes aos veículos conduzidos por pessoas, tornando sistemas de assistência ao motorista mais inteligentes, preditivos e cooperativos.
A expectativa é que o futuro da Segurança viária dependa da capacidade de transformar veículos e cidades em uma rede inteligente, na qual todos compartilham informações para evitar acidentes antes mesmo que eles se tornem visíveis.
Quando um carro começa a conversar com outro carro, com um semáforo ou com a própria cidade, ele deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a fazer parte de um sistema colaborativo capaz de salvar vidas.
Por Lucas Fernandes, cofundador da AutoU.

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