A quem ainda acredita que a corrida da Inteligência Artificial é sobre quem tem o modelo mais inteligente, sinto informar que o foco está na métrica errada. A verdadeira batalha que está definindo o futuro da tecnologia é sobre economia de escala. E, neste exato momento, o modelo de negócios da OpenAI está dando sinais claros de exaustão, enquanto os modelos chineses avançam silenciosamente sobre os servidores das maiores empresas do mundo.
O sinal mais evidente veio com a proposta recente de Sam Altman ao governo dos Estados Unidos. A ideia? Ceder 5% do capital da OpenAI, avaliada em mais de US$ 852 bilhões do valuation, para a criação de um “fundo soberano de IA”, inspirado no modelo do Alasca. A justificativa oficial fala em soberania e segurança nacional.
A leitura não oficial do mercado é de que o modelo de negócios dedicado a queimar bilhões em computação sem um caminho claro para a lucratividade atingiu seu limite. Quando uma empresa privada precisa trazer o governo para o seu cap table dessa forma, não é apenas patriotismo. É necessidade de capital barato e proteção.
Enquanto a OpenAI tenta se blindar em Washington, a realidade nos bastidores das grandes corporações americanas conta uma história diferente. É necessário esquecer o nacionalismo tecnológico. No mundo corporativo, o que manda é o custo por token e a eficiência na produção, ponto em que os modelos chineses de código aberto estão causando um verdadeiro estrago no fosso competitivo (o famoso moat) das empresas ocidentais.
Não estamos falando de startups obscuras testando ferramentas novas. Estamos falando da espinha dorsal da economia digital americana migrando silenciosamente para as IAs desenvolvidas na China. A Shopify e o Airbnb estão rodando seus processos no Qwen, da Alibaba. A Coinbase cortou seus gastos pela metade adotando o GLM-5.2 e o Kimi K2.7. A Siemens integrou o DeepSeek e o Qwen. O Uber Eats está de Qwen2. Até mesmo a Microsoft, a principal parceira da OpenAI, está testando internamente o DeepSeek V4 para reduzir os custos do Copilot.
Qual o motivo dessa debandada silenciosa? A resposta é matemática. Em apenas seis meses, as empresas americanas viram seus custos de inferência caírem entre 30% e 60% ao adotar esses modelos. As tecnologias chinesas oferecem a mesma qualidade, podendo até superar no caso de tarefas específicas de código e raciocínio, custando de 10 a 50 vezes menos. Quando o Kimi K2.6 ou o DeepSeek entregam resultados equivalentes ao GPT-4 ou Claude Opus por uma fração irrisória do preço, a lealdade à marca desaparece rapidamente.
O que estamos presenciando não é apenas uma mudança de fornecedores de tecnologia. É a falência do modelo “crescimento a qualquer custo” no setor de IA. A OpenAI apostou que poderia manter margens altas com tecnologia proprietária fechada. A China respondeu comoditizando a inteligência com modelos de peso aberto altamente eficientes.
A ironia final? Enquanto o governo americano avalia se deve comprar 5% da OpenAI para “proteger” a supremacia tecnológica do país, as próprias empresas americanas já decidiram que a eficiência de custo dos modelos chineses é muito mais importante para seus balanços do que a geopolítica. A revolução da IA não será monopolizada por quem tem mais dinheiro para queimar, mas por quem conseguir torná-la barata o suficiente para ser usada em todos os lugares. E, por enquanto, esse jogo está sendo vencido pelo outro lado do mundo.
Por Rodrigo Cerveira, sócio e CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio

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