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A IA já entrou na sua empresa, mas quem está supervisionando o que ela faz?

A Inteligência Artificial já participa de processos críticos dentro das companhias – o desafio agora é estabelecer critérios de supervisão, rastreabilidade, proteção de dados e responsabilização sobre os resultados gerados pelos modelos

Durante muito tempo, a Transformação Digital foi tratada como um projeto de modernização tecnológica. A Inteligência Artificial (IA) mudou essa lógica. Em poucos anos, ela deixou de ser uma ferramenta utilizada por especialistas e passou a integrar atividades cotidianas de praticamente todas as áreas de uma organização.

Hoje, profissionais utilizam IA para produzir relatórios, criar apresentações, analisar informações, desenvolver códigos, estruturar propostas comerciais e apoiar decisões estratégicas. A tecnologia influencia diretamente processos que impactam clientes, colaboradores, operações e resultados financeiros. Não é mais um experimento de laboratório: 88% das organizações já usam IA em ao menos uma função de negócio, ante 78% no ano anterior, segundo a pesquisa State of AI 2025, da McKinsey.

Grandes oportunidades, grandes responsabilidades
Esse avanço representa uma das maiores oportunidades de aumentar e melhorar a produtividade em negócios de praticamente todos os mercados. Ao mesmo tempo, cria um conjunto de responsabilidades para os líderes empresariais.

Diferentemente de outras tecnologias que apenas armazenavam ou transmitiam informações, os modelos de IA interpretam contextos, produzem conteúdo, recomendam ações e apoiam decisões. Isso significa que os efeitos de um erro, de um viés ou de uma informação inadequada podem ter consequências imediatas e em escala. E não se trata de hipótese: a mesma pesquisa da McKinsey aponta que 51% das organizações relataram ao menos um incidente negativo relacionado à IA nos últimos doze meses de imprecisão de resultados a violações de conformidade, exposição de dados e ações não autorizadas dos próprios sistemas.

O desafio central deixou de ser a adoção da IA, pois, essa etapa já foi superada. A discussão mais relevante é criar estruturas capazes de garantir que a Inteligência Artificial opere dentro de parâmetros claros de conformidade, rastreabilidade e responsabilidade corporativa.

Governança de IA
Há uma objeção recorrente a esse argumento: Governança atrasaria a inovação, criando camadas de controle que sufocam a velocidade que a IA promete. A evidência aponta o contrário. As empresas que extraem mais valor da IA são justamente as que adotam protocolos de risco mais rigorosos privacidades de Dados, Governança de modelos e considerações éticas tratadas desde o início, e não como remendo posterior. Governança madura não é o freio; é o que permite escalar com segurança o que hoje a maioria mantém preso em pilotos.

Esse debate ganha urgência à medida que a regulação sai do plano abstrato. Na Europa, o AI Act começou a ser aplicado de forma escalonada a partir de fevereiro de 2025, com obrigações para sistemas de alto risco previstas para agosto de 2026, e multas que podem chegar a € 35 milhões ou 7% do faturamento global. No Brasil, o PL 2338/2023 o marco legal da IA. Foi aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e tramita na Câmara, adotando classificação por risco e sanções de até R$ 50 milhões. Clientes, investidores e órgãos reguladores já passaram a exigir transparência sobre como a IA é usada.

A ausência de critérios claros ainda gera riscos operacionais, possibilidade de exposição de informações sensíveis, inconsistências regulatórias e danos reputacionais difíceis de serem revertidos. Em um ambiente orientado por dados, monitorar e auditar sistemas que usam IA é tão importante quanto a sua implementação.

Por isso, a Governança de IA não pode permanecer restrita às áreas técnicas – ela deve fazer parte de todos os departamentos. Assim como temas de Segurança da Informação, da gestão financeira ou do Compliance, que migraram para o centro das decisões corporativas, tornando-se fatores de decisão em cada área, a Inteligência Artificial segue o mesmo caminho.

Presidentes, conselhos de administração, CEOs e diretorias precisarão assumir um papel ativo na definição das diretrizes para o uso dessa tecnologia e aqui está uma das maiores lacunas atuais. Apenas 28% das organizações dizem que o CEO assume responsabilidade direta pela governança de IA, e somente 17% relatam que o conselho o faz. Em outras palavras, a tecnologia já está em operação, mas a responsabilização ainda não chegou ao topo.

Modelos sustentáveis de operação
Nos primeiros anos da IA Generativa, a maioria das empresas concentrou esforços em experimentação e identificação de casos de uso. Agora, o foco é criar modelos sustentáveis de operação, capazes de combinar três pilares: eficiência, controle e previsibilidade.

Assim, as companhias que estão se mostrando mais preparadas, não são necessariamente as que adotam mais ferramentas de Inteligência Artificial, mas aquelas que conseguem escalar o uso da IA mantendo padrões rigorosos de auditabilidade, proteção de dados, gestão de riscos e accountability.

A Inteligência Artificial ainda vai revolucionar o mercado e a economia em muitos pontos. Mas os resultados mais expressivos são e continuarão sendo das organizações que entenderem que inovação e Governança não são conceitos concorrentes, mas elementos complementares de uma mesma estratégia.

A próxima vantagem competitiva da IA será definida pela competência de controlar, monitorar e responder aos impactos dessa tecnologia. As empresas que estruturarem essa base desde agora irão capturar valor, atender exigências regulatórias e transformar IA em um ativo estratégico de longo prazo.

Por Thiago de Morais Dutra, R&D diretor- executivo da MATH Group.
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