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Lean Process Modernization: a metodologia que faz a Transformação Digital entregar ROI

Existe uma cena que se repete em salas de reunião de empresas por todo o Brasil. Um CFO apresenta o investimento em automação: seis, sete dígitos. O resultado, passado um ano: os mesmos problemas de antes, agora digitalizados. A fila de aprovação que demorava três dias ainda demora três dias, só que agora passa por um sistema de milhões. A culpa, invariavelmente, recai sobre a tecnologia. Raramente sobre o processo.

Essa confusão entre ferramenta e método é um dos equívocos mais caros da era digital. E é ele que explica por que, segundo levantamentos recentes, mais de 70% das iniciativas de automação corporativa não entregam o ROI prometido dentro do prazo esperado. Não porque a tecnologia seja ruim. Mas porque ninguém parou para perguntar: o processo que estamos automatizando é o correto? A grande verdade é que automatizar um processo ruim é apenas falhar mais rápido, com mais consistência e em maior escala.

O erro de sequência que custa caro

A lógica dominante nas organizações ainda segue um roteiro equivocado: identifica-se um problema operacional, compra-se uma solução tecnológica, treina-se a equipe e espera-se o resultado. O que raramente acontece é a etapa anterior a tudo isso, realizar o discovery do fluxo ou redesenhar o processo em si.

O Lean, filosofia desenvolvida pela Toyota no pós-guerra e refinada por décadas de prática industrial, sempre soube disso. Antes de qualquer investimento, mapear o fluxo de valor, identificar desperdícios e eliminar o que não agrega valor ao cliente. Simples no papel. Profundo na execução.

O que mudou nos últimos anos é que esse princípio encontrou novos aliados: Inteligência Artificial, automação inteligente, Digital Twins e orquestração de processos em tempo real. O resultado é o que está sendo chamado de Lean 4.0, ou, numa denominação mais precisa para o contexto de negócios que batizamos na Verity de Lean Process Modernization.

Lean Process Modernization é uma abordagem de transformação operacional que combina três pilares metodológicos consolidados, Lean, Six Sigma e Service Design, com os aceleradores da era digital: inteligência artificial generativa, automação e orquestração de processos. O que diferencia o LPM das iniciativas tradicionais de transformação digital não é a tecnologia que utiliza, mas a ordem em que a aplica. Antes de qualquer implementação tecnológica, o processo é mapeado, questionado e redesenhado, eliminando desperdícios, reduzindo variabilidade e redesenhando a jornada com foco na experiência de quem executa e de quem é atendido.

Somente sobre esse processo otimizado é que a automação e a IA são introduzidas, encontrando terreno fértil em vez de caos digitalizado. O resultado é mensurável em ciclos curtos e, mais importante, sustentável: não uma melhoria pontual revertida em 18 meses, mas uma mudança estrutural no modo como a organização opera.

Os oito desperdícios, e o que a IA revelou

O Lean identificou sete categorias de desperdício presentes em qualquer processo produtivo. Superprodução, espera, transporte desnecessário, processamento excessivo, estoque, movimentação e defeitos. Durante décadas, esses sete inimigos da eficiência guiaram consultorias e gestores pelo mundo.

A era da Inteligência Artificial revelou um oitavo desperdício, e ele é talvez o mais silencioso de todos. A esses, a era digital acrescentou mais um: informação não utilizada, representando dados gerados por sistemas que jamais se transformam em decisão. O desperdício invisível da era digital.

Organizações modernas geram volumes extraordinários de dados operacionais. CRMs, ERPs, plataformas de atendimento, tudo registra, tudo armazena. E uma fração assustadoramente pequena desse volume é convertida em inteligência acionável para quem decide no chão de fábrica, no contact center ou na reunião de operações.

O LPM aborda exatamente essa lacuna. Ao mapear o fluxo de valor de forma digital, o que a literatura técnica chama de Digital Value Stream Mapping, é possível identificar não apenas onde o processo trava, mas onde a informação se perde antes de chegar a quem poderia usá-la.

O fator humano que nenhum sistema resolve

Existe uma ironia no centro da Transformação Digital: quanto mais sofisticada a tecnologia, mais crítico se torna o fator humano. Pesquisas globais consistentemente apontam resistência cultural à mudança como o principal obstáculo às iniciativas de modernização, acima do custo, acima da complexidade técnica, acima da falta de dados.

Isso não é uma fraqueza organizacional. É uma característica humana fundamental. Processos existentes são territórios de poder, identidade e rotina. Mudar um processo é, antes de mais nada, um exercício de influência e liderança, não de engenharia.

O LPM endereça isso ao envolver as equipes operacionais desde o mapeamento inicial. Quando quem executa o processo participa do diagnóstico, o futuro não é algo imposto de cima, é uma co-construção. A resistência não desaparece, mas diminui substantivamente. E o resultado é uma implementação mais rápida, com menos retrabalho e maior aderência de longo prazo.

Para onde vai tudo isso

O mercado global de eficiência operacional em contextos digitais deve crescer de US$ 34,7 bilhões em 2025 para US$ 79,9 bilhões em 2032, segundo análises recentes. No Brasil, a pressão por eficiência operacional, intensificada por juros estruturalmente mais altos, câmbio volátil e custo de capital elevado, torna esse movimento ainda mais urgente.

Três tendências merecem atenção especial nos próximos anos. A primeira é o Lean 5.0, que recoloca o colaborador no centro da equação, não como operador de processos, mas como parceiro de sistemas inteligentes. A segunda é o Lean Verde, que incorpora o desperdício ambiental como dimensão a eliminar, com energia por unidade como KPI primário. A terceira, ainda embrionária, é a aplicação de computação avançada para otimização de sistemas de complexidade insolúvel pelas abordagens atuais.

Mas para a maioria das organizações brasileiras, a fronteira não está nessas tendências emergentes. Está em algo mais simples e mais urgente: parar de comprar tecnologia antes de entender o processo. Parar de digitalizar o caos e começar a eliminá-lo. A tecnologia amplifica o que já existe. Em organizações de alto desempenho, amplifica excelência. Em organizações com processos caóticos, amplifica o caos.

Importante destacar que o Lean não é uma metodologia de manufatura. É uma filosofia de respeito ao trabalho, à ideia de que cada etapa de um processo deveria existir por uma razão, e que qualquer etapa sem razão é, por definição, um desperdício que alguém está pagando. Na era da inteligência artificial, essa filosofia não perdeu relevância. Ganhou urgência.

Por Victor Gonçalves, diretor executivo da Verity

 

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