“A Inteligência Artificial Generativa está transformando as empresas.” Esta frase, em suas várias versões, é uma das mais ouvidas nos eventos, entrevistas e rodas de conversa de profissionais de tecnologia da informação há alguns anos. Mas essa digitalização avançada dos negócios está também reconfigurando a cadeia global de suprimentos. A altíssima demanda por chips para a construção de Data Centers, que são a infraestrutura da IA, está provocando a falta de semicondutores e memórias de alta largura de banda no mercado global, impactando diretamente os custos de hardware no Brasil.
Para se ter uma ideia do tamanho dessa demanda, a Western Digital e a Seagate anunciaram que toda a produção planejada para 2026 já foi pré-vendida, absorvida pelos data centers hyperscalers antes mesmo de uma única unidade ser entregue. Com a fabricação incapaz de aumentar rapidamente, a perspectiva é de que o desequilíbrio no fornecimento de componentes se prolongue até 2027.
Para os fabricantes, essa pode ser uma boa notícia, com faturamentos trimestrais batendo recordes. A Micron, por exemplo, anunciou que sua receita quase triplicou no primeiro trimestre deste ano em relação ao ano anterior, chegando a pouco menos de US$ 24 bilhões. A expectativa da Associação da Indústria de Semicondutores dos Estados Unidos é de que as vendas globais desses produtos atinjam cerca de US$ 1 trilhão neste ano, alta de 26% sobre o resultado já recorde do ano passado.

Já para o mercado em geral, o resultado dessa mudança de foco nos investimentos em TI é uma pressão inédita sobre o valor dos componentes, o que está causando uma inflação sem precedentes nesse segmento. O índice de preços globais da Context mostra que o custo médio de venda de RAM estava 136% mais alto em janeiro em relação ao valor de referência de meados de 2025, período em que a falta de componentes ainda não era tão acentuada. Os SSDs seguiram um caminho semelhante.
Essa situação causa distorções no mercado, provocando o desbalanceamento entre preço e volume. O Management Report Brasil da Context mostra que o faturamento total do mercado brasileiro de memória RAM cresceu 82,2% na comparação do primeiro trimestre de 2025 com o mesmo período de 2026. Mas esse resultado é explicado exclusivamente pelo aumento de 275,3% no preço médio (ASP) porque o volume de unidades vendidas caiu 51,5%, indicando uma retração relevante no consumo.
Ou seja, o crescimento de receita não está associado a uma expansão da demanda, mas sim ao aumento expressivo de preços. Na prática, o mercado está vendendo menos da metade das unidades em relação ao ano anterior, e o aumento do preço por unidade está compensando essa queda de volume.
Já o mercado brasileiro de GPUs, na mesma base de comparação, apresenta crescimento tanto em volume quanto em valor. A venda de unidades aumentou 64,0%, enquanto o preço médio (ASP) registrou alta de 54,3%. Como resultado, o faturamento total da categoria cresceu 153,3%. Na prática, há aumento consistente no número de unidades comercializadas, combinado com um ticket médio mais elevado, o que sustenta o avanço da receita.
Impactos na distribuição
Globalmente, a restrição de oferta provocou uma onda de antecipação de encomendas, com revendedores antecipando compras para garantir estoque com os preços atuais, antes que chegue a próxima onda de aumentos. Esse movimento, inflaciona os números de receita no curto prazo, mas também mascara o que pode ser um enfraquecimento da demanda, com já mencionamos estar acontecendo no segmento de memória RAM.
Os orçamentos de preços tornaram-se um verdadeiro problema. Antes eram comuns cotações durarem por 30 dias. Agora valem por quinze dias ou até menos. Alguns fornecedores começaram a incluir nos contratos cláusulas que permitem a alteração de preços ou até o cancelamento caso os custos mudem antes da entrega. Para um comprador corporativo que já tem orçamento aprovado para um projeto, ser informado no meio do processo que o preço mudou é mais do que inconveniente; é um problema de governança.
Para os distribuidores no Brasil e em outras regiões da América Latina, a dinâmica do mercado mundial é um desafio. Quando a disponibilidade global de componentes diminui, os fabricantes priorizam mercados grandes (como Estados Unidos e Europa), mais estáveis e com ciclos de pagamento mais curtos. Como consequência, distribuidores em países da nossa região normalmente recebem menos volume do que solicitam.
O canal, então, ajusta preços antecipando um valor de reposição mais alto e com entrega incerta. Ou seja, os preços sobem antes mesmo de faltar produto, o que ajuda a defender a disponibilidade. Isso reflete uma gestão de risco de inventário baseada em tendências globais, mas alinhada a padrões observados em outros mercados periféricos, somando ainda a fatores locais como variação cambial e custos logísticos.
A gestão estratégica exige a definição de políticas de cobertura mínima de estoque de componentes como RAM e SSD, junto ao fortalecimento do portfólio com soluções corporativas que reduzam a dependência do setor commodity retail . Na negociação com fabricantes, o foco deve ser garantir disponibilidade e condições comerciais favoráveis, mais do que buscar descontos. Já na área de precificação, é fundamental antecipar ajustes em SKUs críticos para proteger as margens.
Embora essa dinâmica de mercado gere desafios e incertezas, ela também abre oportunidades para o canal de TI diversificar sua atuação em direção a soluções corporativas para mitigar impactos no longo prazo. Entre as soluções que os gestores corporativos de TIC estão olhando estão Cloud e contratar dispositivos como serviço (device-as-a-service). Com isso, abre-se também uma oportunidade genuína para o mercado de dispositivos recondicionados. Com hardware novo escasso e caro, dispositivos usados, vendidos com garantia do distribuidor ou revenda, passam a ser uma boa alternativa. O efeito indireto é um reforço nos compromissos ESG, ao prolongar a vida útil dos equipamentos.
Gestão estratégica
Tanto para os distribuidores quanto para os gestores corporativos de TIC, esse cenário exige um planejamento estratégico rigoroso para mitigar riscos de estoque e oscilações de margem. O acompanhamento constante dos indicadores de mercado, por meio de ferramentas como o Painel de Inteligência de Mercado da Context, é essencial para a tomada de decisões fundamentadas em evidências reais.
O certo é que, pelo menos neste e no próximo ano, o PC deixou de ser o centro da indústria de tecnologia. A variável mais importante do negócio de hardware não é mais apenas a demanda local, mas sim a alocação global de componentes impulsionada pela inteligência artificial.
Compreender essas novas prioridades do mercado de TI não é um exercício teórico: é o que permitirá antecipar movimentos de preço, negociar melhor com fabricantes e tomar decisões comerciais com menor risco. A vantagem competitiva não está em ter mais estoque, mas sim em ter o estoque certo no momento certo.
Por Constanza Caminos, executiva responsável pelo Desenvolvimento de Negócios na América Latina da Context

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