Dois fóruns de telecomunicações recentes, o International Telecoms Week (ITW), em Washington D.C., e o Painel Telebrasil Summit, em Brasília, diferentes em seus objetivos e proporções, mas comum em seus debates de que a próxima fase da economia digital será definida pela infraestrutura. Contudo, o que se discute atualmente no setor é que infraestrutura deixou de ser apenas uma questão de quem chega primeiro ao próximo salto em Conectividade, mas de um conjunto cada vez mais integrado de ativos nesse ecossistema, como redes, Data Centers, energia e projetos de interconexão, que precisa evoluir de forma articulada para sustentar o crescimento tecnológico.
A Inteligência Artificial acelerou esse movimento ao aumentar drasticamente a demanda por processamento de Dados, armazenamento e baixa latência, trazendo a infraestrutura para o foco central da estratégia dos negócios. Tanto o ITW quanto o Painel Telebrasil trouxeram a energia étrica como um dos fatores incondicionais de construção de uma base física capaz de sustentar, com eficiência e escala, a próxima fase digital.
No ITW, que reúne anualmente o ecossistema global de Telecom e infraestrutura digital nos Estados Unidos, temas como Data Centers preparados para IA, rotas internacionais e disponibilidade de energia dominaram as discussões. Ao mesmo tempo, em Brasília, o Painel Telebrasil destacou justamente a necessidade do nosso País de avançar em três pilares estruturais: capacidade energética, ambiente regulatório para Data Centers e novos projetos de Conectividade internacional, incluindo iniciativas de cabos submarinos.
O ponto em comum nos dois palcos foi a ênfase na fundação crítica da economia digital, incluindo a organização da infraestrutura existente. O Brasil e o mundo, em suas devidas proporções, buscam organizar a estratégia para atingir este objetivo. Por isso vale mencionar aqui a questão do compartilhamento de postes em território nacional e o avanço significativo que esta pauta teve no fim de maio, com parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) quanto à obrigação do compartilhamento das estruturas pelas companhias elétricas e de telecomunicações. A situação do Brasil é peculiar, dado o grande volume de ISP’s que estão presentes em todas as cidades brasileiras. Não vemos isso nos Estados Unidos e Europa.
Visão sistêmica integrada
Embora o compartilhamento de postes possa, à primeira vista, parecer um tema localizado do Brasil, ligado à organização urbana, ele reflete um desafio mais amplo de Governança da infraestrutura. O crescimento acelerado da conectividade nos últimos anos – impulsionado principalmente pelos provedores regionais – ampliou as redes de fibra óptica e democratizou o acesso à internet, mas também evidenciou a dificuldade de organizar o uso dos postes enquanto um ativo crítico compartilhado.
Em escala global, a discussão é justamente como organizar o uso de ativos críticos em um ambiente cada vez mais complexo e interdependente. A principal diferença está na forma como esses elementos são integrados em uma estratégia única. Não basta avançar isoladamente em energia, redes ou Data Centers, é necessário construir uma visão sistêmica capaz de integrar essas frentes em uma lógica única de desenvolvimento. O desafio, daqui em diante, é garantir consistência e integração entre essas iniciativas.
Ouso comparar essa situação com o nosso modelo energético: temos produção de energia limpa acima de qualquer outro país, mas nossa deficiência é de transmissão. Não adianta ter Data Centers, cabos submarinos e deixar sem uma Segurança jurídica o compartilhamento de postes.
Do poste à interconexão global, passando por energia e processamento, a infraestrutura deixou de ser uma camada invisível da tecnologia para se tornar um elemento central da estratégia. Durante a pandemia o mundo percebeu a importância da banda- larga de qualidade, permitindo o trabalho remoto, reuniões por vídeo, etc. Agora vemos a Inteligência Artificial também acelerando um processo que já estava em curso que é o de transformar ativos físicos em vantagem competitiva. Nesse cenário, quem conseguir organizar, escalar e integrar sua infraestrutura terá melhores condições de capturar as oportunidades da próxima fase da economia digital.
Por Vanderlei Rigatieri, CEO e fundador da WDC Networks.

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