book_icon

Crianças nas redes: o Brasil está protegendo quem mais importa?

A proteção de Dados de crianças e adolescentes deixou de ser uma pauta periférica para se tornar um dos principais temas no Brasil. E, nesse cenário, a atuação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) não é apenas relevante — é determinante.

Os números escancaram a dimensão do desafio. Hoje, 92% dos brasileiros entre nove e 17 anos estão conectados, o equivalente a cerca de 24 milhões de jovens. Destes, 96% utilizam o celular como principal dispositivo e 78% acessam várias vezes ao dia. Os Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostram que essa geração não apenas habita o ambiente digital, mas se forma dentro dele.

Nessa experiência, há uma constante exposição à publicidade: 55% das crianças e adolescentes dizem ter tido contato com anúncios por meio de redes sociais. Mais grave, porém, é o acesso a materiais explícitos: 8% relatam terem visto conteúdo sexual, sendo que 11% receberam pela internet mensagens de conteúdo sexual.

Isso desafia a capacidade de mediação das famílias e das escolas. Apesar da alta conectividade, estudos da própria TIC Kids apontam que 36% dos pais ou responsáveis não conseguem acompanhar totalmente o uso das plataformas pelos menores, o que reforça a importância de políticas públicas de educação digital e de transparência por parte das empresas. A responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e plataformas torna-se central para reduzir riscos e ampliar a proteção.

É nesse contexto que a ANPD assume um papel que vai muito além da regulação formal. A autoridade se torna guardiã de um princípio fundamental: o de que o melhor interesse da criança deve prevalecer sobre modelos de negócio baseados em coleta massiva de dados e monetização da atenção.

Plataformas digitais não são neutras. Elas operam com lógica econômica orientada por dados, engajamento e previsibilidade comportamental. Quando esse modelo atinge crianças e adolescentes, há um desequilíbrio estrutural — e é justamente isso que a regulação precisa corrigir. Para as empresas, isso muda tudo.

Não estamos mais falando de adequação documental ou de políticas de privacidade extensas e pouco acessíveis. A exigência agora é sair do discurso e entrar no design: incorporar proteção de Dados desde a concepção dos produtos, limitar a coleta ao mínimo necessário, garantir transparência real e desenvolver experiências digitais adequadas à faixa etária.

Há quem ainda enxergue esse movimento como aumento de custo ou entrave à inovação. É uma leitura curta. A proteção de Dados — especialmente de públicos vulneráveis — já se consolidou como ativo reputacional e diferencial competitivo. Em um ambiente onde confiança se tornou moeda, empresas que demonstram responsabilidade digital ganham vantagem.

Além disso, a atuação da ANPD tem um efeito importante de equilíbrio de mercado. Ao estabelecer parâmetros claros, reduz a vantagem competitiva de modelos baseados em exploração intensiva de dados e incentiva práticas mais éticas e sustentáveis. Isso não freia a inovação, qualifica-a.

Esse movimento também dialoga com a tendência internacional de fortalecimento da proteção de Dados de menores, com autoridades reguladoras em diferentes países avançando sobre limites de perfilamento, publicidade direcionada e design de plataformas. O Brasil, ao consolidar a atuação da ANPD nesse campo, se insere em uma agenda global de proteção reforçada à infância no ambiente digital.

A ANPD, assim, não deve ser vista como um obstáculo regulatório, mas como um catalisador de maturidade. E empresas que compreenderem isso antes das demais não apenas estarão em conformidade, mas um passo à frente em um mercado que já não tolera negligência digital.

Por Aline Deparis, CEO e especialista em privacidade e proteção de Dados da Privacy Tools

Revista Digital