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O Brasil não pode alugar a inteligência do futuro

O Brasil tem hoje fabricantes nacionais com capacidade de produzir servidores, racks, storage e infraestrutura de rede em volume relevante, dentro de padrões internacionais de qualidade e certificação. Soberania digital nasce do controle sobre Dados, modelos, talentos, regras e sobre o equipamento que faz tudo isso funcionar

Cerca de 60% das cargas digitais processadas no Brasil dependem de infraestrutura instalada fora do País, segundo estudos do Ministério da Fazenda sobre o tema. O Dado não é apenas técnico. É uma declaração silenciosa de dependência. Cada vez que um Dado brasileiro atravessa a fronteira para ser processado, atravessam junto dólares, decisões de arquitetura e a possibilidade de auditar o que acontece no caminho.

A Inteligência Artificial transforma esse padrão de problema em risco estrutural. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo elétrico global de Data Centers dobre até 2030, alcançando aproximadamente 945 TWh. Em pouco tempo, será um setor com demanda energética comparável à de países inteiros. A pergunta para o Brasil deixa de ser se quer participar dessa expansão. Passa a ser onde quer estar na Cadeia.

Declaro o meu lugar antes de seguir. Como executivo de uma fabricante brasileira de servidores e equipamentos para Data Center, observo essa discussão por uma lente específica, a de quem produz, emprega e investe em pesquisa dentro do País. Esse interesse não invalida o argumento. Apenas o ancora em algo concreto, e por isso o trago à mesa.

A balança comercial mostra como a dependência se materializa. Em 2024, o País acumulou déficit de US$ 40 bilhões em elétricos e eletrônicos e de US$ 7,1 bilhões em serviços, parte significativa associada a processamento e armazenamento de Dados. É terceirização da base computacional que sustenta toda a economia digital brasileira, sem o ruído político que cercaria a terceirização de uma cadeia industrial tradicional. Para CEOs e CIOs, a mensagem prática é direta: a fatura mensal de Nuvem deixou de ser linha de TI. Virou tema de estratégia.

Para tornar essa afirmação concreta, basta olhar o que aconteceu nos balanços dos últimos dois anos. Empresas brasileiras que orçaram seus contratos de Nuvem com dólar a R$ 5,00 viram o OPEX de tecnologia estourar em dois dígitos sem que nenhuma decisão de produto tenha sido tomada, apenas porque o câmbio se moveu.

Comitês de risco em bancos e operadoras de saúde discutem hoje o que significa, do ponto de vista de Bacen, LGPD e auditoria, processar dados regulados em Data Centers fora do País. CIOs que migraram para um único hyperscaler global descobrem que o custo de sair, anos depois, é maior que o custo de ficar, porque os Dados estão em formato proprietário, os times foram treinados naquela stack, e a renegociação anual é sempre com o mesmo fornecedor. E ninguém que tenha vivido incidentes que geraram paradas dos ambientes ou paralisação dos serviços, esquece o que significa ter operação crítica brasileira parada por causa de uma decisão técnica tomada em outro fuso horário.

Nenhum desses problemas é abstrato. São linhas de balanço, atas de comitê de risco, conversas de domingo à noite com o CEO antes da reunião de segunda. E todos eles têm em comum o fato de que o Brasil, hoje, depende de infraestrutura crítica que opera sob regras, custos e cronogramas decididos fora do País.

O incômodo aumenta quando se olha o que o Brasil tem para oferecer. A matriz elétrica nacional alcançou 88,2% de renovabilidade em 2024, segundo o Balanço Energético Nacional. Eólica e solar somaram 24% da geração. Em uma indústria global pressionada por metas climáticas, custo de energia e disponibilidade hídrica, esses números são ativos competitivos raros. Some-se a isso a presença de cabos submarinos, posição geográfica favorável e um mercado interno relevante. Ainda assim, o País ocupa apenas a décima posição no mercado mundial de Data Centers. O gargalo não é vocação. É articulação.

É nesse ponto que o Redata, projeto de regime especial de tributação para serviços de Data Center, Computação em Nuvem e processamento de Dados, ganha relevância estratégica. O projeto não é benefício fiscal isolado. Tal como tem sido discutido no Congresso, condiciona a redução tributária a contrapartidas concretas: reserva de capacidade ao mercado interno, exigências de eficiência hídrica e energética, uso de fontes renováveis e investimento em pesquisa e desenvolvimento. É política pública com pacto produtivo embutido.

Críticas legítimas questionam o tamanho da renúncia fiscal e quem se beneficia. O debate é saudável, e os parâmetros finais precisam ser cuidadosamente calibrados durante a tramitação. Mas a pergunta que permanece é quanto custa ao Brasil deixar essa janela passar. Em tecnologia, janelas raramente se fecham com aviso. Encerram-se em comitês de investimento que escolhem outras jurisdições. E, uma vez consolidados os hubs regionais, o efeito de aglomeração se mantém por décadas.

Há, porém, uma camada do debate que tem ficado de fora e merece ser trazida ao centro. Atrair Data Centers ao Brasil sem encadeá-los à indústria nacional repete um padrão que já conhecemos em outros setores: o Brasil oferece o terreno, a energia e o incentivo, e importa o equipamento que será instalado em cima. A construção fica aqui. O valor agregado, em parte, segue indo embora.

Não se trata de protecionismo. Trata-se de reconhecer que países com indústria de hardware ativa — Estados Unidos, China, Coreia, Taiwan e, em escala diferente, México, usaram Data Centers e infraestrutura digital como vetor de adensamento industrial, não apenas como serviço importado de prateleira. O Brasil tem hoje fabricantes nacionais com capacidade de produzir servidores, racks, storage e infraestrutura de rede em volume relevante, dentro de padrões internacionais de qualidade e certificação. Essa capacidade existe, gera empregos qualificados e investe em pesquisa dentro do País. A política pública que destrava a infraestrutura digital deveria, naturalmente, criar incentivo para que essa Cadeia local seja parte da equação, não por favor a um setor, mas por coerência com o objetivo declarado de soberania.

Mecanismos para isso já existem em outras frentes da política industrial brasileira: percentual mínimo de conteúdo local, preferência em compras condicionadas a investimento em P&D, certificações de origem. Aplicá-los ao Redata, de forma desenhada para não criar barreiras desnecessárias e nem encarecer o investidor estrangeiro de forma proibitiva, é o tipo de calibragem que diferencia política industrial moderna de proteção genérica.

O resultado, se bem-feito, é duplo: o Brasil atrai o capital estrangeiro que precisa, e a indústria nacional captura uma parcela do investimento que, sem esse desenho, seguiria fluindo apenas para fornecedores globais.

Aqui entra a leitura combinada com o PL 2338/2023, que regula o uso da Inteligência Artificial no País. Regra sem infraestrutura vira intenção. Infraestrutura sem regra vira ativo capturado por quem já domina a Cadeia. E infraestrutura sem indústria vira contracheque pago em moeda alheia. Política pública madura junta as três frentes, define direitos e deveres no uso da Inteligência Artificial, cria base computacional local capaz de sustentar modelos e serviços alinhados ao interesse brasileiro, e encadeia esse esforço com a capacidade produtiva nacional já instalada.

Soberania digital, no contexto da Inteligência Artificial, depende, portanto, de cinco camadas, não quatro: os Dados, os modelos treinados a partir desses Dados, os talentos capazes de desenvolvê-los, as regras que governam tudo isso, e o hardware sobre o qual tudo isso roda. Esquecer qualquer uma dessas camadas é aceitar que o controle estará, na prática, em outro lugar.

A consequência para quem decide é direta. Quem domina a camada de processamento controla prioridades de roadmap, custos, auditoria, continuidade operacional e resposta a choques geopolíticos. Quem domina a camada de hardware decide cronogramas de entrega, especificações, ciclos de obsolescência e disponibilidade em momentos de escassez global — como o mundo aprendeu, dolorosamente, durante a crise dos semicondutores entre 2020 e 2023, quando montadoras pararam linhas inteiras à espera de componentes. Em setores como energia, finanças, saúde, defesa e governo, isso significa, na prática, que decisões de continuidade de negócio dependem de fila de prioridade definida fora do País. CIO de operadora financeira que precisou reprovisionar capacidade durante o boom de IA em 2024 sabe do que estou falando. Tratar essas camadas como simples contratação de serviço é uma escolha legítima — mas é uma escolha cujo custo aparece no relatório anual seguinte, na linha de despesa cambial, no comitê de auditoria, ou quando a empresa precisa migrar e descobre o tamanho do contrato que assinou.

Aprovar o Redata com contrapartidas robustas, incluindo encadeamento com a indústria nacional, é, portanto, o passo mínimo. O passo seguinte, e mais difícil, é transformar a presença física desses data centers em capacidade tecnológica e produtiva própria. Isso significa formação massiva de talento técnico, desenvolvimento de modelos em português com Dados brasileiros, pesquisa aplicada com fornecedores e universidades locais, encomendas para a indústria de hardware nacional, e arranjos de governança que garantam que a sensibilidade dos dados brasileiros seja tratada sob jurisdição brasileira.

Nada disso é simples. Mas adiar o tema também não sai barato. O custo da omissão já aparece na conta externa, na dependência operacional crescente, no atraso decisório de empresas que dependem de infraestrutura definida em outros fusos horários, e no encolhimento gradual da indústria nacional capaz de sustentar essa Cadeia. Soberania digital não nasce do nada. Nasce do controle sobre Dados, modelos, talentos, regras e sobre o equipamento que faz tudo isso funcionar. Enquanto não construirmos essa base, o Brasil seguirá iluminando a Inteligência Artificial dos outros, com hardware dos outros, e enxergando o próprio futuro à meia-luz.

Por Rodrigo Guercio, vice-presidente de Negócios Corporativos da Positivo Tecnologia.

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