
Em um cenário no qual a Inteligência Artificial (IA) parece resposta para todos os problemas, o mundo corporativo ainda depende da manutenção de sistemas com décadas de legado. O principal desafio das empresas latino-americanas é equilibrar inovação e continuidade operacional. Líder do Red Hat Enterprise Linux (RHEL) para a América Latina, o venezuelano radicado em Bogotá, Colômbia, Alejandro Dirgan (foto), veio ao Brasil esta semana apresentar novidades e defender uma modernização pragmática, capaz de reduzir riscos sem interromper serviços críticos.
“Muita gente está tentando inovar para ser competitiva no mercado e, ao mesmo tempo, trabalha com sistemas que são legados, estão ali há muitos anos, mantidos de forma quase artesanal”, disse. Para resolver qualquer falha de segurança, uma atualização pode representar um alto risco à base de clientes. “Quando se intervêm em algo tão sensível, é como realizar uma cirurgia com o coração aberto”, comentou.
Essa complexidade ajuda a explicar por que a Transformação Digital ainda avança de forma desigual. Apesar do discurso dominante nos últimos anos, apenas uma parcela limitada da infraestrutura foi de fato modernizada. “Quando você volta a uma empresa, hoje, e vê o que foi transformado realmente, é uma parte pequena”, disse. Na prática, a maioria continua operando de maneira tradicional e dispendiosa. “A manutenção hoje ocupa 70% ou 80% dos custos de TI”.

Segundo o executivo, a velocidade do negócio é limitada pelo elo mais lento da cadeia. “Tudo depende da infraestrutura de TI”, explicou. “Se você tem uma parte do processo pouco otimizada, todo o ciclo de produção terá o mesmo ritmo”. Para Dirgan, essa é a chave ao convencer lideranças financeiras a investir em modernização. Mais do que custo, trata-se de competitividade.
A Red Hat aposta em uma abordagem que permita a convivência entre esses dois ritmos. Ferramentas como OpenShift e Ansible ajudam a acelerar a inovação, enquanto o próprio RHEL evolui para reduzir riscos de atualização. Um exemplo é o chamado Image Mode, que transforma o sistema operacional em algo mais próximo da lógica de desenvolvimento contínuo. A proposta é substituir a “cirurgia” por atualizações mais previsíveis e automatizadas, integradas a pipelines de software.
Outro movimento relevante é a ampliação do ciclo de vida das plataformas. Em linha com o anúncio recente da companhia, o modelo passa a incluir novas opções de suporte estendido, como o Extended Life Cycle Premium (ELC), permitindo que empresas permaneçam por mais tempo em versões específicas do sistema operacional. A estratégia responde a uma demanda concreta do mercado: aplicações críticas que não podem ser atualizadas rapidamente, seja por restrições técnicas, regulatórias ou de certificação.
“Você precisa que sua aplicação hoje fique seis anos em uma versão? Posso oferecer um suporte especializado”, observou Dirgan. Em casos extremos, a empresa estuda até modelos sem prazo definido de suporte. A lógica é clara: garantir estabilidade para que o cliente não precise interromper sua operação ou desviar foco da inovação para “apagar incêndios”.
Se a modernização da base tecnológica já é um desafio, a chegada da Inteligência Artificial amplia ainda mais a complexidade. Embora seja a tecnologia com maior penetração recente, sua adoção real ainda é limitada. “Muita gente está tentando testar as tecnologias. Mas ainda a adoção é muito pequena”, afirmou. Entre os entraves estão a velocidade das mudanças, a falta de equipes especializadas e, principalmente, preocupações com segurança e confidencialidade de dados.
Nesse ponto, o modelo híbrido ganha relevância. A possibilidade de manter dados sensíveis em ambientes controlados, combinando infraestrutura local e nuvem, é vista como essencial para destravar projetos. “Muita gente tem medo de entregar seus dados a serviços externos”, observou.
A discussão sobre segurança ganha contornos mais amplos com o avanço de novas tecnologias. Dirgan destaca que a própria IA já é utilizada em ataques cibernéticos, elevando o nível de sofisticação das ameaças. Isso reforça a necessidade de modernizar a infraestrutura não como diferencial, mas como requisito básico. “A modernização é uma necessidade. Não é um luxo”, afirmou.
O horizonte de risco também inclui a computação quântica, que pode comprometer os atuais padrões de criptografia. Mesmo que tal tecnologia seja apenas uma ideia agora, A Red Hat já trabalha com conceitos de segurança pós-quântica, incentivando clientes a iniciarem desde já o mapeamento de seus ambientes. A preocupação não é apenas futura: dados capturados hoje podem ser explorados mais adiante. “Coletar agora e descriptografar depois”, resumiu.
O conselho do executivo para líderes de tecnologia é direto: antes de investir em novas ferramentas, é preciso entender profundamente o ambiente existente. “O mais importante é primeiro entender o que você tem”, disse. Mapear dependências, identificar obsolescência e priorizar mudanças com impacto real no negócio são passos fundamentais para evitar aumento de complexidade sem ganhos concretos.
No fim, a equação proposta por Dirgan não envolve substituir completamente o passado pelo futuro, mas administrar essa transição com inteligência. Em um mercado ainda conservador como o latino-americano, onde o risco de mudança pesa tanto quanto a necessidade de inovar, a capacidade de equilibrar esses dois mundos pode definir quem consegue, de fato, transformar tecnologia em vantagem competitiva.
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