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Alta global de componentes de tecnologia pressiona mercado brasileiro, mas impacto será seletivo

Para João Saldanha, conselheiro de Governança, Risco e Compliance, a narrativa de “aumento generalizado e inevitável” simplifica demais um mercado que é, por natureza, dinâmico, competitivo e adaptável

Alta global de componentes de tecnologia pressiona mercado brasileiro, mas impacto será seletivo

O mercado global de tecnologia passa por um momento de alta nos preços de componentes críticos, impulsionado pela explosão de demanda por soluções de Inteligência Artificial. Memórias de alto desempenho, como DRAM e HBM, além de GPUs especializadas, registraram aumentos expressivos, em alguns casos superiores a 400%, em 2025. Além disso, grandes fornecedores têm priorizado contratos de larga escala com empresas de IA, o que gera desequilíbrios na oferta e pressiona toda a Cadeia de Suprimentos.

O efeito pode ser acompanhado nas movimentações de diversas regiões chaves no mundo. Na Ásia, investimentos em semicondutores para IA já ultrapassam a marca de US$ 130 bilhões neste ano, enquanto os Estados Unidos travam disputas comerciais que podem impor tarifas de até 100% sobre chips importados. Esse cenário tem efeito direto sobre países que dependem de importação, como é o caso do Brasil.

O efeito pode ser acompanhado nas movimentações de diversas regiões chaves no mundo

Aqui, o quadro é agravado por oscilações e políticas de importação. Em fevereiro, o governo anunciou o aumento das tarifas de mais de 1200 produtos de informática, incluindo computadores e celulares, com alíquotas variando entre 7,2% e 25% – a medida foi revogada após forte repercussão. Ainda assim, um especialista da Tripla, empresa de Cibersegurança, tecnologia e Compliance, alerta que o movimento não implica automaticamente em repasse integral ao consumidor final, e que o impacto não deve ser homogêneo.

“Fabricantes e provedores de TI já adotam estratégias de absorção de custos, contratos de longo prazo e ajustes seletivos, que tendem a mitigar aumentos”, afirma João Saldanha, conselheiro de Governança, Risco e Compliance na empresa. “Em muitos casos, as companhias optam por reposicionar linhas premium, alongar ciclos de atualização ou ajustar especificações técnicas para equilibrar margens e manter a atratividade dos produtos.”

O especialista explica também que o preço de um produto ou serviço de TI “não é a simples soma aritmética do custo de seus componentes isolados”, sendo necessário também considerar pontos como estratégia de margem do fabricante, concorrência no segmento e elasticidade da demanda, além de fatores técnicos como energia, refrigeração, rede e taxa de utilização dos recursos, que também têm peso significativo.

Do ponto de vista tributário, afirma que oscilações podem influenciar preços locais, mas que não há, até o momento, evidências robustas o suficiente de uma elevação indiscriminada e permanente, capaz de, por si só, explicar um encarecimento geral de todo o setor.

Novas eventuais altas de preços também tendem a reduzir a demanda. Empresas adiam upgrades, e os próprios consumidores estendem os ciclos de troca de seus dispositivos, impondo limites ao repasse de custos e funcionando como uma espécie de freio “natural” para aumentos excessivos. Isso também força fabricantes e provedores a buscar soluções criativas para manter a adesão dos clientes.

Saldanha concorda que o avanço da IA está reconfigurando a economia digital, mas defende que o impacto nos preços será multifacetado. Infraestruturas que utilizam a tecnologia devem sentir uma pressão mais imediata e clara, mas produtos de consumo tendem a sofrer reajustes moderados dependendo da configuração embarcada, e serviços de TI devem repassar seus custos de forma seletiva, e não sistêmica. Para ele, a narrativa de “aumento generalizado e inevitável” simplifica demais um mercado que é, por natureza, dinâmico, competitivo e adaptável.

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