Uma caravela da frota de Cabral em 1500 não se comportava nem remotamente como um navio moderno em 2025. O que antes dependia de astrolábio, vento favorável e velas para navegar, passou a utilizar GPS, motores de precisão, computadores e sensores que antecipam riscos. No entanto, capitão e marinheiros, separados por 525 anos, têm algo em comum: eles precisam deter o conhecimento e se adaptar ao uso dos instrumentos disponíveis de sua época.
O mesmo acontece com a IA Generativa: o papel humano do especialista de orientar, dirigir e intencionar, unindo sensibilidade e estratégia ao poder das máquinas evoluiu e segue sua progressão geométrica de mudanças. Seja um homem do mar ou um especialista em tecnologia, o importante é que o indivíduo se adeque ao que é necessário e importante para exercer sua função.
A IA não é antiga como um barco, mas não nasceu ontem. Ela vem sendo desenvolvida há décadas com o mesmo propósito: aproximar-se do raciocínio humano. O que mudou de 2020 para agora é a velocidade e a escala com que essa tecnologia se integra à vida das pessoas e das empresas. A IA Generativa, em especial, transformou o imaginário sobre o futuro do trabalho.
O impacto mais forte não ocorre mais nas tarefas repetitivas ou operacionais, e sim nas funções criativas – justamente aquelas que pareciam estar protegidas da automação dos primeiros tempos da tecnologia. Áreas como design, escrita, marketing, comunicação, administração e RH estão sendo redefinidas. Criar deixou de ser um ato exclusivamente individual para se tornar também um processo colaborativo com sistemas capazes de gerar ideias, textos e imagens em segundos.
No mundo, e no Brasil, a transformação já se faz sentir com números materializados na mudança do mercado de trabalho. De acordo com o levantamento recente da consultoria LCA 4Intelligence – com base em metodologia da Organização Internacional do Trabalho (OIT) -, algo como 31,3 milhões de empregos, o que representa aproximadamente 30,6% da força de trabalho ocupada, estão “expostos” à IA Generativa em 2025. E, dentro desse universo, 5,5 milhões de trabalhadores ocupam funções com “alto risco” ou de “impacto imediato”.
Esse impacto, porém, tende mais à transformação das tarefas e das funções do que à eliminação de empregos de forma abrupta. Ainda teremos “marinheiros”, porém eles vão mudar o perfil de seus empregos. Em paralelo, cresce a demanda por profissionais que dominem a IA: o número de vagas no Brasil que exigem conhecimentos específicos quase quadruplicou em três anos, de 2021 a 2024, de acordo com a pesquisa Global AI Jobs Barometer 2025, da PwC.
Nesse cenário, o uso de IA expande possibilidades, cria atalhos, acelera o processo criativo, dá escala à produção. Mas o diferencial verdadeiro volta a ser o humano: com sua intenção, direção, sensibilidade e propósito. O profissional contemporâneo não é mais quem “executa” tarefas, mas quem define o que quer, e por que quer, e além do óbvio. É o fator humano quem dá alma àquilo que a máquina produz.
O erro de muitas empresas é tratar o uso da IA como algo trivial: “basta usar e a mágica acontece”. Um erro grave. A tecnologia não substitui visão, repertório, experiência e, até mesmo, o feeling. Saber dirigir a criação, e não apenas gerar resultados automáticos, é o que diferencia quem “usa IA” de quem “domina a IA com propósito”.
Por isso, as habilidades essenciais vão muito além da técnica. Filosofia traz reflexão e ética. Arte e improviso estimulam originalidade e adaptação, bem como a resiliência e curiosidade mantêm o aprendizado vivo, em meio à mudança constante. Profissionais com olhar generalista ganham destaque, porém, a capacidade de conectar áreas, traduzir contextos e dar sentido ao excesso de informação se torna indispensável em um mundo onde a inteligência está distribuída. E, sim, a interpretação continua humana.
Não se trata de competir com a IA, trata-se de criar com a liberdade de utilizar a tecnologia. É ela que pode expandir o alcance das ideias. E cabe ao papel humano seguir naquilo que é essencial: dar direção, significado e alma a tudo o que é produzido.
Assim como o leme em 1500 ou o comando digital em 2025 permitem que o barco chegue ao porto, ambos têm uma pessoa por trás deles. O mesmo se dá com a IA, e cabe aos líderes do mercado educar e capacitar os profissionais a conduzir a tecnologia com propósito, sensibilidade e visão estratégica para fazer a melhor travessia e descobrir novos e empolgantes mundos.
Por Priscilla Parodi, CSO (Chief Strategy Office) da Mr. Turing.





















