A discussão sobre Inteligência Artificial precisa amadurecer. Hoje, muitas empresas estão fascinadas pelas ferramentas preditivas, pelos modelos Generativos e pela promessa de Automação, mas poucas estão dispostas a olhar para a pergunta essencial: a base de Dados está preparada para sustentar decisões inteligentes?
Mesmo com a corrida pela integração em IA, apenas 22% das organizações afirmam ter avançado além da fase de prova de conceito em IA generativa, segundo a Deloitte. Além disso, o Gartner estima que 30% dos projetos de IA Generativa serão abandonados após essa fase, principalmente por baixa qualidade de Dados, controles de risco inadequados ou valor de negócio pouco claro. Ou seja, a maioria das empresas ainda está testando, sem ter resolvido o problema anterior.
Esse desafio não se restringe à IA Generativa, usada para criar textos, imagens, códigos ou assistentes virtuais. Ele também afeta a IA aplicada à tomada de decisão operacional, responsável por prever demandas, identificar riscos, otimizar estoques e apoiar processos críticos do negócio. Em ambos os casos, a qualidade dos resultados depende diretamente da qualidade dos dados.
Antes de criar qualquer solução de IA, é preciso enfrentar uma realidade que o mercado insiste em adiar. Um algoritmo pode ser matematicamente poderoso, mas sem Dados estruturados, consistentes e contextualizados, ele não entrega inteligência operacional real. Ele apenas processa incertezas com aparência de precisão. IA sem histórico confiável é apenas um palpite sofisticado.
E o problema começa antes do modelo. Infelizmente profissionais de Dados ainda dedicam grande parte do tempo à limpeza e preparação de informações antes que qualquer análise possa ser realizada. Isso significa que o principal desafio de muitos projetos de IA continua sendo a qualidade da base que alimenta a tecnologia.
O legado acumulado nos ERPs, nos sistemas de Supply Chain e nas bases transacionais construídas ao longo de anos representa um dos ativos mais estratégicos que uma empresa pode ter na próxima década. Ali está a memória do negócio, o histórico de compras, vendas, produção, estoque, comportamento de clientes, exceções operacionais, sazonalidades e impactos de contexto econômico.
Quando essa memória é bem organizada, ela dá contexto para que a IA gere previsões melhores e decisões mais confiáveis. Estudos da McKinsey mostram que empresas com dados históricos e operacionais adequados conseguem reduzir erros de previsão entre 20% e 50% ao aplicar IA em Supply Chain. Aplicações mais avançadas chegam a reduzir estoques entre 20% e 50% e custos logísticos entre 5% e 20%. O diferencial não está no algoritmo escolhido. Está na qualidade do que alimenta esse algoritmo.
Por isso, quando falamos sobre inteligência artificial nas empresas, a conversa não deveria começar pela ferramenta mais nova ou pelo modelo mais avançado disponível no mercado. Ela deveria começar pela capacidade da organização de transformar seus próprios Dados em um ativo confiável para apoiar decisões. Integração entre sistemas, Governança de Dados, qualidade dos cadastros e consistência histórica não são etapas secundárias de um projeto de IA, mas sim pré-requisitos para que qualquer projeto funcione.
Quase três décadas de experiência em implantação de sistemas em grandes companhias mostram um padrão recorrente: a tecnologia raramente falha sozinha. O que falha é a camada anterior a ela, a Governança, o processo, a disciplina com os Dados. Com IA, esse risco se multiplica, porque os modelos preditivos amplificam o que recebem. Com uma boa base, amplificam inteligência. Com base frágil, amplificam erro com uma aparência convincente de precisão. Nos próximos anos, muitos projetos de IA vão fracassar não por causa do algoritmo escolhido, mas porque a arquitetura de Dados era frágil desde o início. Esse é o alerta de que o mercado ainda não está ouvindo com a seriedade que merece.
A mensagem é direta. Antes de escolher a ferramenta de IA, a empresa precisa ser honesta sobre o estado da própria casa. Isso significa revisitar a integração entre sistemas, auditar a qualidade dos cadastros, garantir consistência histórica e estabelecer Governança sobre o Dado que circula no negócio. Quem entender isso antes vai tomar decisões melhores, mais rápido e com muito menos risco do que quem ainda está escolhendo o modelo pelo nome. IA bem aplicada não começa na ferramenta. Começa na arquitetura de Dados.
Por Éric Machado, CEO da Revna Tecnologia.

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