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Do código aberto à IA: duas décadas de Transformação Digital e o que esperar do futuro

Há vinte anos, o universo corporativo brasileiro operava em silos. Sistemas proprietários que não se falavam, ambientes fechados que protegiam fornecedores mais do que clientes, e uma lógica de dependência tecnológica que tornava qualquer mudança lenta e cara. Do outro lado desse cenário, comunidades de desenvolvedores apostavam num modelo então visto como curiosidade acadêmica: o software de código aberto. Parecia uma disputa desigual. Duas décadas depois, o resultado é inequívoco: os silos cederam, e o Open Source tornou-se a
fundação sobre a qual a economia digital global foi construída.

A transformação foi silenciosa, mas profunda. O Brasil que virou referência mundial com o Pix, sistema de pagamentos instantâneos que processa bilhões de transações em tempo real, é o mesmo que, por anos, precisou ser convencido de que infraestrutura aberta era uma escolha segura. Não é coincidência: conquistas como essa repousam sobre fundações de código aberto, colaboração distribuída e uma cultura que aprendeu a romper padrões estáticos antes de entender como escalar.

O caminho da virada
Quando a Red Hat chegou ao Brasil, em 2026, o mercado ainda precisava ser convencido. O software proprietário reinava nas salas de decisão das grandes corporações e das instituições públicas. Falar em Open Source exigia paciência e muita argumentação e, não raro, esbarrava no ceticismo de quem, como um de nós, trabalhava do outro lado desse debate.

A virada veio com a combinação do smartphone, da Computação em Nuvem e da explosão de Dados que se seguiu. As grandes empresas de tecnologia globais perceberam que os modelos tradicionais de código proprietário não seriam suficientes para acompanhar a velocidade da nova economia digital. A necessidade de escalar rapidamente levou gigantes a investir diretamente em comunidades abertas e, quando chegaram lá, encontraram algo mais do que código: encontraram uma cultura colaborativa que provaria ser o verdadeiro diferencial
competitivo do século XXI.

No Brasil, esse movimento se refletiu de forma progressiva e consistente. O setor público foi um dos primeiros a abrir as portas, enxergando no Open Source uma oportunidade de reduzir dependências tecnológicas e custos. Em seguida, vieram as empresas privadas, primeiro as de tecnologia, depois todos os demais setores. Hoje, não existe organização de relevância no País que não tenha, em alguma camada de sua infraestrutura, adotado o código aberto. O que antes era uma alternativa tornou-se uma regra para se manter competitivo no mercado.

Uma cultura que vai além do código
Fundamentalmente, o que esses vinte anos nos ensinaram é que as revoluções tecnológicas mais duradouras não abarcam apenas ferramentas, dizem respeito a todo o know-how de trabalhar e de tomar decisões. O Open Source mostrou que nenhuma empresa tem (ou pode ter) todas as respostas, que o conhecimento coletivo supera o individual e que a transparência reduz riscos e acelera a escalada de negócios. Esses princípios, nascidos nos fóruns de desenvolvedores das décadas passadas, são hoje a base de algumas das estratégias corporativas mais sofisticadas do mundo.

Assim, organizações que internalizaram esses princípios não apenas em sua infraestrutura, mas em sua forma de operar, chegaram mais preparadas para cada onda de transformação: da Nuvem à Automação, da virtualização aos ambientes híbridos. A abertura não era apenas uma vantagem técnica: era uma vantagem organizacional.

Agora, uma nova transformação reposiciona o debate tecnológico: a Inteligência Artificial Generativa. Pela primeira vez, sistemas conseguem transformar gigantescos volumes de Dados em linguagem natural, análises, Automação e apoio à tomada de decisão em larga escala. O impacto potencial ultrapassa produtividade operacional e alcança praticamente todos os setores da economia: da indústria ao setor financeiro, da saúde ao serviço público. Mais
importante do que a tecnologia em si é a velocidade da mudança, a IA deixou de ser um experimento restrito a laboratórios para se tornar prioridade estratégica de empresas e governos.

Mas o impacto da tecnologia vai muito além da produtividade individual. À medida que empresas passam a lidar com decisões automatizadas, soberania de Dados e exigências regulatórias mais rigorosas, cresce a necessidade de compreender como os sistemas operam e como os modelos são treinados, integrados e governados. É aqui que Open Source e IA convergem de forma decisiva: plataformas abertas oferecem maior capacidade de auditoria,
interoperabilidade e controle tecnológico, fatores essenciais para ambientes críticos.

O Brasil que construímos, e o que ainda veremos no futuro
Olhando para essas duas décadas, o que mais impressiona não é nenhuma tecnologia específica, é a velocidade com que o Brasil passou de mercado a ser convencido para protagonista global em inovação digital. O Pix é o exemplo mais emblemático: sustentar bilhões de transações em tempo real exigiu uma arquitetura altamente resiliente, segura e construída sobre fundações abertas. Esse mesmo ecossistema, formado por profissionais, parceiros e organizações que apostaram cedo no Open Source, é o que coloca o País em posição
privilegiada para a era da IA.

As empresas que chegaram mais preparadas para o momento atual foram, em grande medida, aquelas que já haviam adotado os princípios do código aberto não só em sua infraestrutura, mas em sua cultura organizacional. As que ainda operam presas a ecossistemas fechados e dependências proprietárias carregam um ônus crescente: não apenas de custo e rigidez, mas de distância em relação a um mercado que já se movia enquanto elas aguardavam.

Assim como aconteceu com a chegada da internet e dos smartphones, a IA ampliará exponencialmente a relevância das comunidades abertas e das plataformas que souberam construir confiança ao longo do tempo. Nos próximos vinte anos, o desafio não será convencer ninguém de que a tecnologia aberta funciona ou de que a IA transforma. Será garantir que a cultura que sustenta essas escolhas esteja enraizada o suficiente para que as organizações brasileiras possam extrair o máximo de tudo que está por vir.

Quem plantou essa semente, apostando no Open Source, na construção de ecossistemas colaborativos, e se recusando a aceitar a inovação como privilégio de poucos fornecedores tinha razão. E o Brasil está, finalmente, colhendo os frutos.

Por Sandra Vaz, diretora – geral da Red Hat Brasil.

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