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Blockchain, muito além do Bitcoin

Conhecida devido às moedas digitais, a tecnologia que faz registros imutáveis de transações tem forte apelo corporativo. Passada a euforia da novidade, agora, as empresas entendem melhor suas aplicações na cadeia de Dados descentralizados e com segurança

Blockchain, muito além do Bitcoin

Revelada ao mundo por causa do Bitcoin, a tecnologia Blockchain vai muito além das moedas digitais. O Banco de Dados, que faz o registro de transações de forma confiável e imutável, despertou o interesse de empresas de diversos segmentos. Passado o frisson inicial, quando muitas companhias anunciaram que adotariam Blockchain, hoje, o cenário é mais realista. Já se entendeu, por exemplo, onde faz sentido usar este tipo de registro, quais são as dificuldades de implementação e os reais benefícios.

Contudo, mesmo que as aplicações públicas de compartilhamento de Dados transacionais de várias fontes estejam prosperando, segundo o Gartner, projetos bem-sucedidos de Blockchain corporativo ainda são escassos. O que está em evidência, agora, é o token não fungível, ou non-fungible token – NFT, um ativo digital único baseado em Blockchain que se conecta a ativos do mundo real, como arte digital ou música, e ativos físicos ‘tokenizados’, como casas ou carros.

No caso de NFTs, Blockchain é usado para garantir que aquele item não fungível é único. Isso porque a tecnologia tem a característica de atribuir unicidade a qualquer coisa.

O Blockchain é, como o nome diz, uma cadeia de blocos; é um Banco de Dados distribuído que registra e armazena as informações, utilizando um código criptográfico. A definição original foi divulgada, em 2008, com o artigo Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, publicado por Satoshi Nakamoto (pseudônimo cuja real identidade do autor permanece desconhecida).

Um ponto fundamental e extremamente relevante para usos corporativos é a qualidade do Dado inserido. Isso porque a autenticação e rastreamento são efetuados com base nas informações fornecidas.

“Quatro anos atrás, era febre, com todos falando que Blockchain iria revolucionar o mundo. Estamos acompanhando esse movimento”, disse Roberto Matsubayashi, diretor-técnico da Associação Brasileira de Automação – GS1 Brasil. De acordo com ele há projetos em curso de rastreabilidade, mas sem Blockchain e projetos-pilotos com a tecnologia na linha de produtos perecíveis, para que se possa fazer uma atuação em casos de crise alimentar.

Carlos Henrique Duarte, líder de serviços de Blockchain na IBM América Latina, trabalha com Blockchain desde 2016 e é enfático ao dizer que esta tecnologia não é para resolver todos os problemas, mas alguns ela resolve bem. A fase de testes, para se entender sua aplicabilidade no mercado corporativo, já ficou para trás.

O Brasil está em diferentes maturidades de adoção de Blockchain, dependendo das aplicações 

“Entendo que passamos por um momento, onde muitos dos testes foram realizados e se tornaram redes que têm relevância a ponto de virarem soluções de mercado”, pontua Duarte. A IBM oferece a possibilidade de se construir redes do zero ou de entrar nas existentes, aderindo à rede ou solução de alguém. “Estas diferentes redes começam a se falar, pegar informações umas das outras, utilizar as redes com informação limpa”, completa.

Blockchain tem aplicação crítica para aplicação em cadeias com vários atores, com objetivo de conferir transparência, uma vez que os registros não serão alterados. O mercado, avalia Marco Righetti, diretor-sênior de Engenharia e Arquitetura em Cloud na Oracle América Latina, avalia que o Brasil hoje está em diferentes maturidades de adoção de Blockchain, dependendo das aplicações.

“As pessoas associam a criptomoedas, mas temos de expandir este universo, porque Blockchain é automação entre parceiros, entre entidades, para o bem comum, a exemplo da rastreabilidade de bens de consumo”, define Righetti. Com os ‘blocos’ é possível saber se uma carne veio de área não devastada, para que receba a certificação de origem de recursos que se extraem da natureza e dar transparência para a cadeia de transformação, por exemplo.

Casos de uso
Blockchain têm sido empregada no Varejo, para as áreas de backoffice, finanças e na cadeia de suprimentos. O setor Financeiro também tem sido adepto da tecnologia, não só por conta de Meios de Pagamentos ou do dinheiro digital, mas pela característica de rastreabilidade. Nesse sentido, outras indústrias, como a de mineração, têm recorrido à Blockchain.

Blockchain existe e é viável; as provas de conceito mostram isso. “A discussão hoje é: qual é a proposta de valor, se ela é entendida pelos stakeholders e qual é o modelo de negócios relacionado a isso. São tecnologias, há custo e remuneração e logicamente vai para o custo do produto. Como monetizar isso?”, acrescenta Matsubayashi.

Um exemplo é a  uma rede Blockchain comprometida com o fortalecimento dos direitos humanos e proteção ambiental nas cadeias de abastecimento de minerais, construída na plataforma IBM Blockchain e garantida pelo RCS Global Group. Esta iniciativa tem entre os participantes a Ford, Volvo e LG.

A Rsbn ajudou a resolver o problema de trabalho escravo na extração do Cobalto, usado nas baterias de carros elétricos. A rede foi criada para rastrear o minério, do momento em que é recolhido, quando se transforma em bem industrializado até chegar ao uso.

“Os casos vão acabar se repetindo por conta das características de Blockchain. Já descobrimos ele que não serve para qualquer coisa, mas sim para risco de fraude, necessidade de rastreabilidade, conciliação ou disputa”, aponta Duarte, da IBM.

Blockchain é automação entre parceiros, entre entidades, para atingir um objetivo comum, como a rastreabilidade de bens de consumo 

A própria IBM, além do exemplo da Rsbn, tem outros casos. No Brasil, a Câmara Interbancária de Pagamentos, em 2019, criou uma rede nacional de Blockchain para que bancos compartilhassem informações de dispositivos móveis não confiáveis. A partir dessas identificações, as instituições financeiras podem enriquecer seus sistemas antifraude para verificar um dispositivo específico ao avaliar, por exemplo, se é um aparelho perdido, furtado ou roubado.

Assim, o chamado Device ID ajuda a evitar que o cliente bancário seja alvo de fraudes. “Foi um projeto bem importante do ponto de vista da tecnologia e do desenvolvimento de uma solução brasileira, de formação de time e de capacidade de entrega. Ele também nos capacitou para a criação de outros projetos”, lembra Duarte.

Sem citar nomes, o executivo conta um caso de uso entre empresas locais, uma fornecedora da outra, de formação de uma rede de conciliação de notas fiscais e pagamentos. Nesse caso, esta tecnologia é o core que viabiliza a automação da confiança e possibilita o acordo imediato das informações.

Um dos grandes benefícios de Blockchain é a visão do dado limpo e conciliado para ser utilizado para outras frentes de negócios. E uma das características dessa tecnologia é ela ser esta camada intermediária, esse middleware que possibilita realizar as integrações entre várias fontes de Dados. Indo além, é isso que vai permitir a expansão e a combinação de Blockchain com Internet das Coisas, Inteligência Artificial etc.

As indústrias Agrícola e de Cosméticos têm a transparência requisitada pelos consumidores, ávidos por saber a origem das matérias-primas. “Blockchain habilita a sustentabilidade e ética”, ressalta Righetti. Estes setores dependem de terceiros, ou seja, a cadeia não está toda na mão de um só. “Ele dá transparência, é simples de implementar e não exige alto nível de informatização ou complexidade de sistema, porque prega o registro de cada transação entre os elos; é um livro-caixa e todos têm visibilidade”, explica o executivo da Oracle.

A complexidade está em identificar todos os atores e desenhar o processo, que é compartilhado e depende de terceiros. “Os aprendizados dos pilotos destacam a importância de contar com processos integrados, de pensar em como expor os Dados de forma aberta e como vai extrair informação dali. É pensar em maneiras de começar de forma modular, pegar a cadeia de valor e pensar modular”, diz.

Já a HPE está olhando para Blockchain de modo a inseri-lo no framework Swarm Learning, um mecanismo de compartilhamento descentralizado de Dados. “Começamos a observar que a computação na borda poderia ser a saída para extrair insights deste grande volume de Dados e aí entra Blockchain. Usando IA na borda e com Blockchain como ferramenta de controle”, explica Fábio Alves, diretor da divisão de Computação de Alto Desempenho da HPE.

Alves relatou que áreas como Saúde, Finanças, Manufatura e Veículos autônomos têm aderência à solução, uma vez que precisam compartilhar as informações e Blockchain coordena o que pode ser trocado de informação. “Blockchain é a ferramenta que permite que os centros compartilhem os Dados que querem”, ressalta.

Países da Europa e dos Estados Unidos estão mais avançados no uso do sistema que permite rastrear o envio e o recebimento de alguns tipos de informação via Internet. “Meu trabalho aqui é fomentar isso. Estamos buscando clientes para fazer provas de conceito de Swarm Learning no Brasil”, conta. Um caso é do Dzne, um instituto de pesquisa alemão dedicado a encontrar a cura para doenças de Alzheimer e Parkinson. A instituição estuda, por várias décadas, 30 mil pacientes e firmou parceria com a HPE para ajudá-la a gerenciar os Dados obtidos. Uma das dificuldades era encontrar métodos para compartilhar grandes quantidades de Dados, seguindo as leis de privacidade e regulamentos de conformidade, que variam segundo as diversas jurisdições.

“Eles colaboram usando algoritmos de Machine Learning ou Inteligência Artificial e compartilham os insights conseguidos. Neste momento entra o Blockchain, que faz o controle do que e como pode ser compartilhado”, conta.

Desafios a transpor
Para Matsubayashi, da GS1 Brasil, o Blockchain serve para itens serializados e não para produtos individualizados, com ID único. “Para a indústria, isso é um desafio, porque envolve custos adicionais e implica em que todos os elos da cadeia tratem as informações. Isso cria desafio para a cadeia de suprimentos e enxergamos que existe dificuldade para escalar”, diz.

A GS1 desenvolve padrão de identificação de produto e de mensageria tanto para informação de produtos, como para rastreabilidade. A Associação está indiretamente envolvida em projetos de Blockchain, porque as empresas de tecnologia estão usando o dataset da GS1 de mensagem de rastreabilidade de cadeia, importante para esta tecnologia. “As informações que chegam para a aplicação em Blockchain tem de ser igual às de todos os participantes. E para isso usam a identidade da GS1”, detalha.

Duarte, da IBM, fala que Blockchain não tem nada a ver com comprar caixinha; traz complexidades que extrapolam a TI e esta é a primeira dificuldade tanto para quem vende como para quem compra, porque tem de ser visto sob prisma do negócio”, detalhou o executivo.

Esta tecnologia é simples de implementar, não exige alto nível de informatização ou complexidade de sistema 

Para Alves, da HPE, entender as informações que podem ser compartilhadas é o grande desafio dentro do ambiente colaborativo.

Tecnologias de Blockchain

Para relembrar, ou conhecer, seguem abaixo algumas definições.

  • Confiança descentralizada: O principal motivo pelo qual as organizações usam a tecnologia Blockchain, em vez de outros armazenamentos de Dados, é fornecer uma garantia de integridade das informações sem depender de uma autoridade central. Isso é chamado de confiança descentralizada por meio de Dados confiáveis.
  • Blocos: O nome Blockchain vem do fato de que os Dados são armazenados em blocos e cada bloco é conectado ao bloco anterior, formando uma estrutura em cadeia. Com a tecnologia, você só pode adicionar (anexar) novos blocos a um Blockchain. Você não pode modificar ou excluir qualquer bloco depois que ele for adicionado.
  • Algoritmos de consenso: Algoritmos que impõem as regras dentro de um sistema de Blockchain. Depois que os participantes configuram as regras, o algoritmo de consenso garante que elas sejam seguidas.
  • Nós: Os blocos de Blockchain de Dados são armazenados em nós – as unidades de armazenamento que mantêm os Dados sincronizados ou atualizados. Qualquer nó pode determinar rapidamente se algum bloco foi alterado desde o momento de sua adição. Quando um novo nó completo se junta à rede de Blockchain, ele baixa uma cópia de todos os blocos da cadeia. Depois que o novo nó é sincronizado com os outros nós e tem a última versão, ele pode receber quaisquer novos blocos, assim como outros nós.
  • Existem dois tipos principais de ‘nós’:
  • Nós completos armazenam uma cópia total do Blockchain.
  • Nós leves armazenam apenas os blocos mais recentes e podem solicitar blocos mais antigos quando os usuários precisam deles.
  • Tipos de Blockchains
  • Público: Uma rede Blockchain pública, ou sem permissão, é aquela em que qualquer um pode participar sem restrições. A maioria dos tipos de criptomoedas é executada em um Blockchain público que é controlado por regras ou algoritmos de consenso.
  • Permissionado: Um Blockchain privado ou permissionado permite que as organizações definam controles sobre quem pode acessar os Dados do Blockchain. Apenas usuários com permissão podem acessar conjuntos de Dados específicos. A Oracle Blockchain Platform é um Blockchain permissionado.

Fonte: Oracle

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Roberta Prescott

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