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Como a inovação – e as EdTechs – está desenhando um futuro para a educação

Em vez de jogar fora tradições consagradas pelo tempo, soluções inovadoras caminham para melhorar processos e ajudar instituições de ensino e alunos na transição para um mundo cada vez mais digital

Não é de hoje que a transformação digital está se infiltrando em praticamente todos os aspectos da sociedade. Da mesma forma, a transferência unidirecional de conhecimento, de educador para aluno, também vem ganhando rótulos de ultrapassado. O que gradativamente, empresas, governos e instituições entenderam é que o ensino e a aprendizagem não precisam mais ficar confinados às quatro paredes de uma sala de aula.

“A inovação na educação tem a ver com melhorar o ensino e a forma como aprendemos. Nosso objetivo é alcançar e interagir com uma geração de aprendizes nativos digitais e garantir com que eles estejam preparados para um mundo além da escola que – embora não saibamos exatamente como será – sabemos que será moldado pela tecnologia”, afirma Marc Puškarić, diretor geral da Bertelsmann no Brasil, empresa alemã que investe em mídia, serviços e, principalmente, em educação no país.

Segundo o Mapeamento EdTech 2018 da Associação Brasileira de Startups  – ABStartups, existem mais de 360 companhias espalhadas por todo o país usando a tecnologia sob a forma de produtos, aplicativos e ferramentas para melhorar a forma como aprendemos, sendo 43% somente no estado de São Paulo 

Para o diretor da gigante europeia, a maioria das pessoas concorda que a educação é a chave para uma sociedade produtiva. No final de 2018, o LinkedIn e o Worth Global Style Network – Wgsn divulgaram uma pesquisa sobre o futuro do trabalho mostrando que, apesar do ceticismo sobre o destino das profissões e do equilíbrio entre oferta e demanda de novas oportunidades, quanto maior a utilização de tecnologias no mercado de trabalho, mais valorizadas são as habilidades humanas. “O desenvolvimento de novas inteligências artificiais e as habilidades humanas caminharão juntas e serão colaborativas. Por isso que o mercado das EdTechs experimentou um crescimento tão súbito nos últimos anos. As empresas já começaram a procurar por profissionais que combinem inteligência emocional e social com capacidades técnicas. É um movimento que não tem volta e irá se intensificar ainda mais”, completou Puškarić.

Segundo o Mapeamento EdTech 2018 da Associação Brasileira de Startups  – ABStartups, existem mais de 360 companhias espalhadas por todo o país usando a tecnologia sob a forma de produtos, aplicativos e ferramentas para melhorar a forma como aprendemos, sendo 43% somente no estado de São Paulo. Apesar de um mercado concentrado na educação básica, o segmento com foco no ensino superior, corporativo e o de cursos livres ainda são pequenos, correspondendo a 6, 8 e 19%, respectivamente.

“Não somos empresas de tecnologia, ela vem como suporte e ferramenta para a aprendizagem, apoiando o nosso objetivo final, que é a educação”, explica Julio De Angeli, CEO da Medcel, plataforma brasileira que oferece cursos preparatórios para os exames de residência médica de forma digital.

Foco na inovação dentro da sala de aula, não na tecnologia

Especialistas do setor afirmam que, embora a tecnologia não seja capaz de mudar o atual sistema educacional da noite para o dia, ela pode trazer mudanças significativas. No entanto, para ser utilizada em sala de aula, precisa estar inserida no projeto institucional. “Não adianta oferecer um tablet para os alunos se o professor não souber utilizar os seus recursos”, reforçou De Angeli. Para o CEO da Medcel, a tecnologia pode ser usada para envolver os alunos, visualizar conceitos abstratos e promover a aprendizagem colaborativa. Os professores, por sua vez, devem ser treinados para usar os novos recursos efetivamente e os alunos precisam ser encorajados a aproveitá-la para o aprendizado autodirigido.

Nesse novo contexto, para preparar o profissional do futuro, as metodologias de ensino precisam ser reformuladas a fim de buscar diversidade e disponibilidade nas formas de aprender. “Se as instituições de ensino e os professores não correrem atrás de se atualizarem, mudarem sua mentalidade e investirem em tecnologia, a sociedade e os alunos vão hackear a educação”, analisa Barbara Olivier, Diretora de Inovação e Tecnologia da Affero Lab, companhia líder no setor de Aprendizagem Corporativa no Brasil, oferecendo soluções voltadas para a performance de empresas.

Esse movimento, no entanto, já existe. Nascido em 2011 nos Estados Unidos, o UnCollege defende que a universidade não é o único caminho para o sucesso e que os jovens devem desenvolver a capacidade de auto aprendizado de maneira livre. “O mundo acelerou. E os alunos, que transitam cada vez mais entre universos acadêmicos e profissionais, sabem que o modo como aprendem não atende mais o que precisam saber e fazer no mercado, ainda mais quando falamos em inovação e empreendedorismo. As escolas ainda formam pessoas sem o desenvolvimento de habilidades básicas e necessárias para esse mundo acelerado”, reforça Olivier.

Para as EdTechs, a tecnologia pode acrescentar uma dimensão experimental ao aprendizado, de modo que o processo seja estimulante e prazeroso, como sempre foi feito para ser, mesclando o mundo físico e o digital. “O mais interessante em se trabalhar com inovação na educação é que conseguimos testar novas formas de ensinar e, ao mesmo tempo, mensurar rapidamente o que dá certo e o que não”, afirmou o CEO da Medcel. Entender a forma como cada indivíduo aprende fará com que as pessoas não queiram parar de buscar conhecimento, elas continuarão esse processo por toda a vida.

A estabilidade dinâmica: fazer do aprendizado um hábito

Ainda no ano passado, uma pesquisa do Pew Research Center revelou que 90% dos jovens brasileiros entre 18 a 29 anos acreditam que em cinquenta anos as máquinas farão a maior parte do trabalho hoje exercido por pessoas. Além do Brasil, ao menos duas em cada três pessoas da África do Sul, Argentina, Canadá, Estados Unidos, Grécia, Hungria, Itália, Japão e Polônia afirmaram acreditar que a automação e a inteligência artificial vão fechar postos de trabalhos que hoje são ocupados por humanos.

No entanto, assim como para Puškarić, essa visão não é tão apocalíptica para os líderes das EdTechs do país. “O emprego vai diminuir, mas trabalho não vai faltar”, afirma De Angeli. “Quando olhamos para essas pesquisas, muitos enxergam como uma catástrofe, mas nós vemos como algo positivo: de que as pessoas precisam se qualificar para que identifiquem oportunidades”, completou.

Em 2016, outro relatório do Pew descobriu que 87% dos norte-americanos acreditam que será essencial obter treinamento e desenvolver novas habilidades ao longo de sua vida profissional, a fim de acompanhar as mudanças no mercado de trabalho.

Neste cenário, companhias brasileiras como a Medcel e Affero Lab fazem parte de um novo ecossistema de aprendizagem, o lifelong learning, que oferece as pessoas caminhos mais acessíveis e menos dispendiosos para desenvolvimento de novas habilidades. Em vez de um sistema de ensino que exige que alunos se inscrevam em programas de tempo integral para obter um diploma, as EdTechs desenvolvem plataformas plug and play, que possibilitam o acesso a pequenas pílulas de aprendizagem, a qualquer hora, em qualquer lugar.

“O lifelong learning significa também que o aprendizado está nos pequenos inputs, é forma como nos relacionamos em cada ambiente. Ele não é só a sala de aula, mas vem também da vivência do dia a dia”, explicou o líder da Medcel. Para os especialistas, é possível aprender durante um café, em um grupo de networking ou até mesmo em um vídeo no YouTube.

Esse tipo de aprendizado autodirigido, no entanto, é uma habilidade que poucos absorveram durante toda a vida escolar, onde pais e professores definiram o que e quando aprender. Poucos educadores, por sua vez, já foram impactados por novas metodologias que rompem com esse antigo método. Na Affero Lab, Olivier comenta que encontraram dificuldade em identificar e treinar o que ela define como “os facilitadores”. “São aqueles que vão ajudar os alunos a navegar nos assuntos e a experimentar o que está sendo discutido. Nós encontramos os instrutores, aqueles que simplesmente apresentam o conteúdo. Por isso, tivemos que criar um novo programa dentro da Affero Lab para que eles desenvolvessem essas habilidades”, disse.

Entre as competências que serão demandadas para os profissionais do futuro, os especialistas recomendam cinco para ficar de olho:

* Visible Thinking: um aliado promissor do recurso pedagógico, a proposta dos pesquisadores da Universidade de Harvard é uma abordagem flexível baseada em pesquisa para integrar o desenvolvimento do pensamento com a aprendizagem.

* Capacidade analítica: desenvolvimento de raciocínio lógico para solução de problemas complexos. “Não é apenas fazer cálculos, mas interpretar um obstáculo e encontrar uma saída”, disse De Angeli.

* Rápida prototipagem: que envolve um ciclo rápido de inovação e refinamento. É vital poder criar versões iniciais de inovações, colocando-as na mesa rapidamente para ver se elas darão certo.

* Dilemma Flipping: inteligência para transformar dilemas em vantagens e oportunidades. “Os problemas podem ser resolvidos, enquanto os dilemas não; eles ficam com a gente. Esta competência envolve reformular um desafio insolúvel como uma oportunidade”, explicou Olivier.

* Cocriação: é a necessidade de os futuros líderes serem capazes de semear, nutrir e desenvolver ativos que possam beneficiar o bem comum.

A Bertelsmann é uma companhia internacional de mídia, serviços e educação presente em mais de 50 países. Suas atividades se organizam em oito divisões: o RTL Group, de rádio e TV, líder em entretenimento na Europa; a editora de livros Penguin Random House, maior grupo editorial do mundo, a Gruner + Jahr, de conteúdo; o provedor de serviços Arvato, a empresa musical BMG; o Bertelsmann Printing Group, maior parque gráfico da Europa; o Bertelsmann Education Group, com alunos formados em 168 países e o Bertelsmann Investments, a divisão de investimentos corporativos da empresa.

As atividades do Centro Corporativo de São Paulo também dão suporte às divisões que atuam no Brasil: do RTL Group, a Fremantle Brasil, vem trabalhando com as principais emissoras na produção de formatos como o THE X Factor para a televisão brasileira. A Penguin Random House possui participação em um dos maiores grupos editoriais do Brasil, a Companhia das Letras. O Bertelsmann Music Group – BMG passou a gerenciar direitos musicais no país através da abertura de filial em julho de 2016. A Arvato que, além de disponibilizar um portfólio de serviços relacionados à gestão da cadeia de suprimentos e impressão, expandiu seus negócios de serviços financeiros no Brasil após adquirir participação majoritária no fornecedor de serviços financeiros Intervalor. O Bertelsmann Educational Group, através da empresa de tecnologia e educação Udacity.

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