Entrevistas

Mercado de F&A está aquecido no Brasil

Segundo Alberto Freitas, diretor de M&A da Cast group, Brasil deve se destacar no setor agrícola

O setor de tecnologia lidera o número de transações no mercado de fusões e aquisições no Brasil, com cerca de 170 delas, no período de janeiro a novembro de 2017. Os dados são de um relatório da Transactional Track Record (TTR), agência que monitora o setor de M&A (Merger and Aquisition). Alberto Freitas, diretor de M&A da Cast group, aposta que o Brasil tem tudo para ser protagonista nessa área, especialmente, no setor agrícola.

“O Brasil é um mercado muito grande ainda e vem sofrendo um processo na área de TI, que não é diferente dos outros, de concentração de mercado e criação de grandes grupos brasileiros de tecnologia”, Alberto Freitas

O executivo aponta que, passada a crise, as empresas passam a investir o montante que foi estagnado durante o período de recessão. Segundo ele, o mercado de TI brasileiro tem se destacado em fusões & aquisições, e um dos motivos é a inovação estratégica. “É mais fácil trazer uma empresa inovadora do que tornar a minha empresa inovadora. A grande maioria das companhias tem adquirido empresas inovadoras mas tem tido dificuldade na incorporação por causa da cultura. No dia a dia, a cultura é normalmente avessa a inovação”.

Leia a entrevista completa abaixo:

O processo de F&A está impactando o mercado de tecnologia?

A melhor comparação é com a medicina. Antigamente, o médico olhava tudo, era um clínico geral. Hoje, a medicina é especialista, ou seja, o que tinha um caráter generalista, acabou voltando para especialidades. Na tecnologia é a mesma coisa. Hoje, ela é muito generalista e o mercado é muito grande. O que começou pequeno é enorme. Então é preciso ter várias especialidades coberta na área de tecnologia. Um exemplo disso é a Netshoes, que não tem a função fim de tecnologia, mas é considerada uma empresa de tecnologia. Temos novos players chegando e a tecnologia está permeada em tudo.

O que faz da F&A uma estratégia assertiva?

Nesse momento entendemos que se não tiver uma visão estratégica, a F&A não funciona. Comprar por comprar não muda nada. Além disso, é preciso ter uma boa percepção para tentar prever o futuro. O mundo virou cloud. A primeira opinião é digital. Ou seja, qualquer coisa que se faça hoje em dia, se busca na web a respeito. A convergência da cadeia de valor é um negócio que vai transformar muito o mercado. E, por fim, o mundo será IoT.

O cloud trouxe para o dia a dia o poder de processamento externo. Isso significa que qualquer aparelho hoje pode trazer um poder de processamento capaz de rodar em algum lugar, o que prove disponibilidade. Tem também a redução de custo, já que a infraestrutura é dividida com outras empresas e o custo é compartilhado. A convergência da cadeia de valor também é outro ponto. Existem vários players nesta cadeia até chegar ao usuário. A tecnologia permite agora acabar com o meio da cadeia, fazendo com que o fabricante tenha acesso ao cliente, vendendo direto. Do lado do fabricante para os fornecedores pode ser que um desses players tire ele do mercado. Isso já está acontecendo, mas não em uma velocidade que é possível perceber.

Como você vê esse movimento no mercado de distribuidor?

Hoje, os maiores distribuidores de produtos de consumo passam a ser marketplace. A Amazon ainda está tímida no Brasil, mas temos a WallMart que passou por esse movimento. A Lojas Americanas, por exemplo, vende produtos de vários fabricantes e não tem estoque próprio. No mercado de distribuição, vejo que está sendo gerado grandes oportunidades para pequenos distribuidores, porque elas começam a ter vitrines nesses marketplaces, antes eram lojas de rua. Existe um mercado abundante para isso e é uma oportunidade diferente para esses players. Além disso, há outros softwares que ganharão mais força, como os e-procurement. Se dá como uma compra eletrônica. Por exemplo, uma empresa que quer comprar e põe uma solicitação no marketplace de um fornecedor, neste caso Mercado Eletrônico ou NeoGrid, e aí vários fornecedores propõe o preço para essa demanda. Isso muda a forma como as empresas se relacionam com o mercado. O mercado de distribuição seguirá existindo, mas muda a forma de vender e até de se posicionar.

Então, quando eu falo da convergência da cadeia de valor tem a ver com o novo foco em Internet das Coisas. O mundo será IoT. Primeiro, porque o cloud permite isso. Segundo, o preço da tecnologia passa a ser competitivo para a IoT.     Isso permite crescimento em algumas verticais. Como a indústria, por exemplo. A indústria vai observar uma verdadeira revolução nas formas do processo de produção, com equipamentos muito mais baratos do que ela tinha anteriormente como monitoramento online em tempo real. A IoT permite o monitoramento de qualquer coisa em qualquer lugar: da produção até a entrega. Isso permite a oferta de serviços diferenciados. Essas revoluções que estão acontecendo precisam estar no radar das empresas, principalmente em uma estratégia de F&A.

Como funciona o mercado de F&A no Brasil?

Basicamente trabalhamos com duas linhas de fusão e aquisição. Uma diz respeito ao crescimento regional no objetivo de alcançar capilaridade, ou seja, vender o meu produto em regiões nas quais eu não tinha presença. E a outra é aumento de portfólio. As duas têm peso estratégico para a companhia. Capilaridade normalmente é colocada em prática quando a empresa quer colocar o portfólio, já testado, em regiões novas ou com pouca ênfase. Nome e conhecimento são levados muito em conta, já que vivemos em um país que possui vários países dentro dele. Já o aumento do portfólio, também estratégico, tem como objetivo trazer produtos que complementem o portfólio, seja para aumentar a presença em algum mercado ou para trazer de novo algo que a empresa ainda não faça.

A inovação é um dos motivos que movimenta esse mercado?

Sim. Porém, é mais fácil eu trazer uma empresa inovadora do que eu tornar a minha empresa inovadora. A grande maioria das companhias tem adquirido empresas inovadoras mas tem tido dificuldade na incorporação por causa da cultura. No dia a dia, a cultura é normalmente avessa a inovação.

Como avalia a maturidade do mercado latino-americano nesse cenário?

A América Latina comparada com outros mercados é muito pequena. Como brasileiros, olhamos com uma miopia de que somos importantes para o mundo. Infelizmente, não somos não com esse peso que gostaríamos. O mercado asiático é gigante. Na comparação com o norte-americano, o PIB do Brasil está no mesmo patamar que o PIB da Califórnia. Temos futuro, mas somos pequenos. Na América Latina, vejo três países na liderança de F&A: Brasil, México e Chile. A Argentina está tentando voltar ao lugar perdido. Colômbia, muito pequena. Bolívia, inexistente. Peru, insignificante. O mundo ainda não nos olha diferente. Somos ainda o quintal. Vejo investimentos como oportunidades futuras. Uma empresa mundial no Brasil tem a subsidiária local representando estatisticamente de 3% a 5% do revenue.

Quais as oportunidades que a América Latina e, principalmente, o Brasil tem?

O Brasil é um mercado fechado. Somos um mercado com muito pouco acordo internacional e custo alto de importação e exportação. Com isso, o que acaba acontecendo é que geramos necessidades movida pelo próprio país. Não somos exportadores de grande tecnologia, muito pelo contrário. O que exportamos de tecnologia é insignificante. Muitas poucas empresas conseguem se posicionar lá fora. Mas é um mercado muito grande ainda e vem sofrendo um processo na área de TI, que não é diferente dos outros, de concentração de mercado e criação de grandes grupos brasileiros de tecnologia. Nosso mercado de TI, principalmente em serviços, precisa ser concentrado. Como o processo que a TOTVS passou, por exemplo, que com a aquisição de várias empresas acabou criando um grupo grande de tecnologia. A Linx está fazendo o mesmo. Nosso mercado é de concentração e volume.

Então, para a empresa se fortalecer, ele deve ter uma estratégia inorgânica também?

Ela pode crescer das duas maneiras mas o mais rápido é inorganicamente. Isso porque nosso mercado é de concentração. Para os custos serem administrado é preciso ter volume. Mas isso não só no mercado de tecnologia. Se repararmos, setores como o bancário por exemplo já passaram por esse momento de concentração. Essa é a razão pela qual as empresas dividem a estratégia de crescimento em duas: orgânico, com melhorias constantes de portfólio, e o inorgânico, através da aquisição de empresas que venham dar capilaridade, novos portfólio e estratégia go to Market.

O governo tem intenção de, com o Plano Nacional de Internet das Coisas, se transformar em um exportador de tecnologia. Na sua opinião, o Brasil tem condição de seguir nesse caminho?

Quando falamos de tecnologia, estamos destacando basicamente o conhecimento, que vem de pessoas. O custo Brasil de pessoas é absurdamente caro. Então hoje, para se investir em pessoas, passamos pela questão de impostos e da lei trabalhista, que já melhorou um pouco com a reforma. Isso cria uma barreira intensa para se ter bons profissionais e bem remunerados. Então, existe uma grande oportunidade, principalmente na área agrícola. Também perdemos muito talento porque não se consegue criar um ambiente favorável para que as pessoas queiram ficar e para que as empresas queiram investir.

A área agrícola traz oportunidades?

Na área de inovação, principalmente no setor agrícola, o grande negócio é o expertise que temos por conta da grade área plantada, da nossa produção agrícola. O monitoramento disso, portanto, se faz necessário. A Embrapa tem bastante coisas nesse sentido e já é um fenômeno mundial porque ela desenvolveu com biotecnologia novas sementes e outras coisas. Muitas empresas estão criando coisas alinhadas à produção agrícola. Este mercado no Brasil está aquecido. Tanto que estamos inaugurando uma filial em Goiânia, que terá como foco a área agrícola da região Centro-Oeste. Não somente na indústria agrícola de plantação, mas também de transformação. A cadeia é muito grande.

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