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Burocracia brasileira é inibidora da inovação corporativa, avalia especialista

Para Cezar Taurion, baixo nível de investimento em tecnologia e educação fazem País perder competitividade

“Estamos perdendo o bonde da sociedade digital”. Essa é a opinião de Cezar Taurion, consultor experiente com anos de atuação no mercado de tecnologia brasileiro. De acordo com ele, dois motivos principais entravam o desenvolvimento e maior adoção de inovação em empresas: falta de pessoal capacitado e burocracia nos processos. “Tem que haver uma revolução mental do nosso empresariado, do sistema acadêmico e do nosso governo para tornar o nosso País desenvolvido nesse sentido”, decreta.

Taurion, que recentemente assumiu a operação da Kick Ventures, organização criada para conectar startups com o mercado a partir da busca de investidores-anjo e parcerias de inovação corporativa, avalia que o Brasil está à frente na América Latina, que anda em ritmo bem mais lento que o resto do mundo no quesito adoção de inovação. Ele concorda que o nosso ecossistema de startups é o maior da região, o que pode incentivar a cultura empreendedora no País, mas alerta que a burocracia pode minar essas iniciativas.

Em entrevista à Infor Channel, Taurion diz que o Brasil teria nota 3 ou 4 em uma escala de 0 a 10 no nível de maturidade da adoção de Inteligência Artificial. “Nossas empresas ainda são conservadoras. Por aqui, fazemos mais do mesmo um pouquinho melhor. Mas é possível ver uma ou outra coisa aparecendo. Há boas iniciativas de chatbot e blockchain”, destaca.

Leia abaixo a entrevista completa:

Como você avalia o grau de maturidade da inovação adotada no mercado corporativo brasileiro?

O Brasil está ficando para trás, infelizmente. O mundo está mudando muito rápido e a revolução tecnológica é exponencial. No início talvez você não perceba. Estamos caminhando para uma sociedade cada vez mais digital e podemos perceber que tecnologias como a inteligência artificial são parte obrigatória do nosso contexto. Isso tudo faz com que haja uma mudança no cenário corporativo, inclusive nos modelos de negócios.

Enquanto nós tivermos uma educação do século 19, um governo de 3º mundo e uma visão empresarial do século 20 nós não vamos chegar nunca no século 21

O que precisaria para alavancar a adoção?

Para a inovação acontecer é preciso algumas coisas. Primeiro ter pessoal capacitado. Temos um grande problema educacional. Internet das Coisas e mesmo Inteligência Artificial são assuntos pontuais em universidades brasileiras. Não existe uma política de governo, de apoio. Em Londres, o ex primeiro ministro declarou que queria que Londres fosse até 2020 a capital mundial das Fintechs. O primeiro ministro na China também já disse que Cloud Computing é essencial para o crescimento da tecnologia na China. No Brasil não temos sequer um governante, seja prefeito, governador ou presidente, preocupado com isso. O investimento em tecnologia no Brasil é patético e a educação é muito ruim.

Qual seria o primeiro passo para retomar a curva de crescimento da inovação?

Outra coisa é o ambiente de negócios, que é ruim. Para se abrir um negócio no Brasil é um processo extremamente burocrático, cheio de regras, que traz muita dificuldade. O investidor brasileiro é muito cauteloso. Não é como o americano, por exemplo, que arrisca mais. Ainda temos uma coisa cultural que avalia pelas falhas. Temos ainda um grande conservadorismo do empresariado que trabalha com um protecionismo muito grande, existente desde a época da ditadura militar. A questão de abertura do mercado, que pode contribuir, é criticada. Chamam a atenção do BNDES. Na minha opinião, a sociedade é que tem que financiar. Todos esses fatores, eu acredito, não representam incentivo à inovação. Temos empresas inovadoras. Vemos iniciativas boas acontecendo aqui e ali, mas muito menos do que você vê nos Estados Unidos, Europa e em países da Ásia. Estamos bem atrasados e será difícil alcançar, afinal esses países estarão sempre muito à nossa frente. Estamos perdendo o bonde da sociedade digital. Tem que haver uma revolução mental do nosso empresariado, do sistema acadêmico e do nosso governo para tornar o nosso País desenvolvido nesse sentido.

Como avalia a agenda prioritária do governo?

Sem entrar no mérito se o que está apresentado é ideal ou não, eu acho que tem questões chaves que precisam ser resolvidas. A nossa legislação trabalhista é muito antiga. Não é mais comparado com o que nós temos hoje. O mundo hoje é outro. É possível ser um empresário sem nenhuma estrutura física. Meu local pode ser um AirB&B, meu carro pode ser um Uber, posso fazer minhas entregas por outra terceirizada, ou seja, é possível ter várias empresas e ainda ganhar melhor que um funcionário. Temos um esquema previdenciário que está falindo no mundo inteiro. Foi feito em uma época em que as pessoas morriam com 60 anos no máximo. Outra coisa que não foi discutida é a reforma tributária.

Qual é o principal inibidor da inovação no Brasil?

Vamos pegar a bicicleta como exemplo. Em uma época em que falamos de aquecimento global, de incentivo ao uso de meio de transportes mais econômicos, comprar uma bicicleta no Brasil significa pagar 70% do preço de imposto. Telecomunicações fica em 40%, 50%. Isso inviabiliza uma sociedade digital. Você tem aí portanto uma máquina do governo sugando dinheiro. Ou seja, ele é sócio de qualquer coisa que você faça e ainda não ajuda, atrapalha. Então nós temos que transformar o sistema tributário e eliminar toda essa burocracia que é inibidora da inovação. E indiscutivelmente temos que fazer uma reforma política para que ela não seja a dominante na discussão da sociedade. Temos que fazer o País ir para a frente e a política contribuir com isso. Não dá para ela ser a grande rainha do cenário. Enquanto nós tivermos uma educação do século 19, um governo de 3º mundo e uma visão empresarial do século 20 nós não vamos chegar nunca no século 21.

Estudos apontam que o Brasil se destaca como país com maior ecossistema de startups da AL. Como se beneficiar disso?

A América Latina é muito devagar e o Brasil está realmente se destacando. Eu converso muito com essa garotada. As cabeças são outras, os objetivos são outros. Ninguém quer ter um carro ou apartamento, por exemplo. Eles não querem emprego, querem ter um negócio. Muitos deles saem das universidades porque percebem que a faculdade não dá a formação adequada. O ensino nas faculdades de Ciência da Computação aborda linguagens e modelos computacionais que já se tornaram obsoletos. Conheço muitos que pararam pelo meio a faculdade. O lado bom disso é que essa garotada está incentivando uma cultura de empreendedorismo. Eles estão incentivando que a visão tradicional de você ser empregado para ter segurança e estabilidade de lado. É muito ruim sonhar com uma coisa e ser obrigado a trabalhar com outra. Mas voltamos aí às dificuldades que o País impõe: a burocracia.

Que mudanças precisariam acontecer para incentivar ainda mais essa cultura?

O grande desafio é o ambiente inóspito. Eles fazem, eles querem e se esforçam para fazer. Se houvesse mais mudança, abriria mais espaço. Ano passado houve uma mudança de apoio de investidores anjo. Passou um pouco desapercebido, mas antes, como investidor anjo, você era corresponsável se a startup tivesse qualquer problema de ordem tributária ou trabalhista. Isso agora mudou. Agora está havendo uma mudança no modelo de investimento. Então são pequenos passos que não chegam a mudar o todo, mas que abrem portas e tira essa nuvem, essa fumaça que está sobre nós. Vejo, portanto, que as startups têm um papel importante nessa cultura de empreendedorismo x concurseiros. Também começam a fazer o governo pensar em flexibilizar algumas regras. Talvez seja o caminho que nós temos para nos aproximar e não ficar muito distante dos países desenvolvidos.

Que panorama você faz da adoção da Inteligência Artificial no Brasil?

Estamos atrasados, portanto, por duas razões: o sistema educacional que é atrasadíssimo é pelas empresas que não adotam tecnologia muito avançadas, ainda são conservadoras. Por aqui, fazemos mais do mesmo um pouquinho melhor. Mas é possível ver uma ou outra coisa aparecendo. Em uma escala de 0 a 10 eu diria que nós estamos entre 3 e 4. Há boas iniciativas de chatbot e blockchain. É a ponta do iceberg mas é o primeiro passo. Vemos startups com ideias muito boas também.

Pode nos adiantar o que vem por aí?

Temos aporte inclusive com outros investidores envolvidos, em startups que usam a Inteligência Artificial em projetos inovadores. Um deles usa a IA para a comunicação mais natural, ou seja, para que o processo soe bem naturalmente. Temos outra startup de realidade virtual que eu vejo muito potencial na área de educação. Tem outra que ajuda uma empresa área na manutenção de aeronaves. Temos na área de saúde também, onde se consegue melhorar até o treinamento para se fazer uma operação sem envolver uma pessoa e também para criar simulações. Na área de varejo, temos uma que opera para identificar comportamentos do cliente. Isso permite fazer previsões até. Também existe na área de segurança, para identificar uma fraude antes que ela aconteça. São coisas ainda incipientes mas que estamos apostando muito.

Que impacto que a inovação deve ter, na sua opinião, no canal de distribuição de TI?

Vejo cada vez mais o modelo as a service crescendo. Isso porque a tecnologia, ainda mais quando aliamos inovação e inteligência artificial, permitirá o crescimento exponencial do uso compartilhado dos produtos. Veja carros, por exemplo. Hoje pagamos 100% para usar 10% do tempo total do carro. De resto ele fica parado. Isso despertará cada vez a consciência para o ‘usar’ e não ‘ter’. Estamos diante da economia dos serviços, da economia do compartilhar. Eu creio que será o dominante da manufatura e será como o impacto da revolução industrial. Nesse sentido, o canal de distribuição tem que se remodelar para oferecer serviços e ter uma renda recorrente com a oferta da manutenção. É como o Netflix, tem que manter o cliente feliz. Eu acredito que a maioria das empresas não estão preparadas para o ambiente de nuvem. Isso é sério e ao mesmo tempo uma grande oportunidade. Elas só transferem os dados da empresa para o seu servidor. Isso não oferece escala. Com isso, o custo operacional se torna cada vez mais ineficiente. O custo para nuvem é uma corrido ao custo zero, ou seja, se você mantém esse preço alto, a sua solução perde competitividade.

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